Desbotar você

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Eu fui desbotando você
tirando da minha pele
todas as marcas que você deixou
com seus gritos, seus choros e seus sorrisos
teus lamentos no meu ouvido
teus pedidos de perdão

Eu fui desbotando você
e sua culpa
que era sempre minha
e sua dor
que era minha heresia

Eu fui desbotando você
tirando você
apagando você
Mas você,
Ah você…
É pior que tatuagem.

Marca na pele
na alma
e volta
quando a gente pensa
que apagou.

Eu fui desbotando você
junto com os nomes
que você me chamou
os gritos
que você jorrou
os chutes e tapas
que veja bem,
eram só pra acordar

“Acorda menina!
Você não pode ser assim
tão doce, tão bege, tão em cima
tem que tá embaixo
ser vermelho, azedo
que nem eu

Você tem que ser eu
porque você não pode ser você
veja bem querida,
você não presta
e eu só quero o seu bem”

Então eu vou pegando meus pedaços
e dando pra você
até não sobrar mais nada de mim
até eu ser toda sua
toda você

É por isso, querido
que eu preciso
eu necessito
desbotar você
deixar você
abandonar você
bloquear você

Até que eu possa
ser eu

Até que não exista mais
você

o samba, o café e o rádio

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Você me acordou com um samba gostoso, que tocava no rádio antigo da sua cozinha. Na mesa, dois pratos, dois copos, o café recém passado, a omelete quente e uma flor roubada do jardim. O sol brilhava frio, as nuvens escondiam o dia, o vento brincava de fazer barulho. Dançamos juntos, meu coração no seu, seu rosto no meu, a respiração pausada, os passos pequenos tomando cuidado para não pisar um no pé do outro. A gente se encontrava ali, eu usando a sua camiseta do Star Wars, você de cueca samba canção. Era domingo, mas a cidade respirava alto em nossos ouvidos. A gente não prestava atenção e só escutava o samba, que tocava no rádio antigo da cozinha. Eu queria ainda lembrar o seu nome, mas ele ficou entre os caminhos que percorri, as lembranças que perdi, as história que guardo no peito. Entre a festa do teatro, o beijo meio pedido, meio roubado, os teus cabelos encaracolados, o sorriso quebrado, os olhos escuros, o trajeto no carro, o abraço no ônibus, a caminhada pelas ruas perdidas, você segurando minha mão no meio da madrugada, a loucura na noite. A única noite. Eu e você, o passo devagar, o samba na cozinha, o rádio velho e a camisa do Star Wars.

15.06.14

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eu não estou mais cabendo aqui.
transbordo pelos números binários.
como água.
como ar, eu flutuo.
escorro pelos dedos
e deixo de ser palavra.

arco e flecha

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Era pra ser flecha
foi arco
perdida sem pontaria
entre a ida e a partida

Era pra ser algo
foi nada
perdeu-se entre o começo
o fim e sem meios

não era
pra ser
foi
é

desejo

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tem dias que bate aquele desejo
fugas
efêmero
de ter mais
que um sorriso
um olhar
um suspiro
um beijo

tem dias que bate aquele desejo
de sentir o vento bater no rosto
de fugir
sem olhar para trás
cortar as raízes
que me fincam no chão
virar pássaro
e voar

tem dias que bate aquele desejo
de desistir de tudo
começar de novo
e de novo
até encontrar
as respostas que não existem

tem dias que bate aquele desejo
de abandonar as angústias
que não vão embora
aceitar
quem sou
ou não sei
que sou

tem dias que bate aquele desejo
de desistir de todos os desejos
e aceitar
a cerca branca
e tudo aquilo que renego

tem dias que bate
aquele
desejo
bate e volta
e vai
embora
até não sentir mais

porque tem uma coisa com desejos
que todo mundo esquece de contar

eles passam.

Moi non plus

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Eu queria escrever sobre você, mas não existe mais você.

Não existe mais o quarto escuro, as visitas no meio da noite, o moletom quentinho, o arraial com tucupi, a noite do oscar, você contando minhas pintinhas, os atrasos constantes, as fugas, os medos, as inseguranças, os sushis, as conversas no carro, as idas ao karaoke, você cuidando da minha bebedeira de tequila, os beijos escondidos, as mensagens no whatsapp, o filme da Anne Frank, você me aquecendo no frio, a camisa amarela, os encontros no corredor, as conversas intermináveis, a carta que eu te dei, a surpresa que você me fez.

Não existe mais você.

A festa no Peru, o seu olhar atrás da bateria, você sentando o meu lado, o sotaque no meu ouvido, vamos alí rapidinho, o beijo no frio, como aqui é frio, você quer ir para o meu apartamento? Você é doida sabia? A conversa sobre os exs, você broxando na primeira vez, o calor no meio da noite, dormir de conchinha.

Não existe mais você.

A briga no corredor da UFAC, você chegando bêbada no meio da noite, as traições, as mentiras, os beijos de bom dia, as idas para Porto Velho, os encontros escondidos, as conversas no telefone, o dia no cinema, os e-mails de amor, as promessas que nunca aconteceram, as raivas, as mágoas, os desrespeitos, as noites no hospital, os dias que você me fez chorar, a crise de gastrite.

Não existe mais você.

As noites que dormi na sua casa, as brigas no seu quarto, as tardes conversando no corredor da UFAC, os poemas que nunca te enviei, a forma como você me beijava o rosto, as surpresas que você fazia, a sua inconstância, você segurando minha mão, o ciúme que você não admitia, as fofocas que não eram verdadeiras, as coisas que você me escondia.

Não existe mais você.

A festa a fantasia, os telefones trocados, nós duas em uma cama de solteiro, o filme que nunca terminamos de ver, o encontro com os amigos, as primeiras impressões, o medo, a fuga, o encontro por acaso, o beijo por vingança, a forma como te tratei, desculpa.

Não existe mais você.

O beijo com sabor de açaí, o dia na piscina, as horas esperando, os desabafos, os telefones que vocês não atendeu, as conversas sem beijos, o fim que nunca teve, a tarde na beira do rio, as lágrimas no restaurante, a festa junina, o livro que você me emprestou, a expoacre, o beijo roubado, os e-mails trocados, o começo de tudo. Tudo mesmo.

Não existe mais você.

Só existe eu.

Tem dias que são assim

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Existem dias que a gente se sente perdida. Existem anos que a gente também se sente assim. Anos. Meses. Vários dias. Muitos altos e baixos. Bons altos. Péssimos baixos. E sempre a mesma vontade de se encontrar. Aí a gente larga o emprego, faz um mapa astral, muda pro outro lado do país, conhece pessoas novas, vai jantar sozinha em uma pizzaria, vai ao cinema sozinha, vai a uma penca de festas e shows sozinha. Encontra alguns poucos amigos que te fazem sentir em casa. Tenta. Falha. Tenta de novo. Falha novamente. Procura novos sonhos, que mudam pra outros, que viram projetos, que não dão certo. Falha de novo. Chora porque não aguenta mais falhar e errar e não saber exatamente o que tá fazendo da vida. Aí fica doente, mas não consegue a cirurgia no SUS, beija umas bocas, se despede de bons amigos, quebra um celular, ganha um pouco de dinheiro como atendente de lanchonete duas vezes por semana, viaja com quase nenhum dinheiro, vai na praia, se sente feliz, abraça a amiga, vai no karaoke, faz um curso, compra um novo celular, tenta de novo, falha de novo, vai mal em uma entrevista de emprego, quebra o pé, volta para casa e tenta se reencontrar, só pra descobrir que o que tá procurando não tá aqui. Ou tá, mas você que ainda não sabe direito o que tá procurando. Deus, eu só queria saber o que eu quero. Aí a gente pensa no passado, na menina que tirava foto de flor, brincava com o cachorro, passava horas escrevendo fanfics, fazia jornal de mentira e escrevia livros sobre samurais, sacerdotisas suicidas, vampiros e bruxas. Descobre que quer contar histórias, mas que o mundo não está interessado em ouvir. Ou talvez seja você, que não sabe contar boas histórias. Aí chora mais um pouco, porque continua sem saber o que quer fazer da vida. Pensa em montar um empresa, mas desiste. Pensa em ficar, mas quer ir. Pensa em fazer um roteiro, mas não dá certo. Consegue um freela, mas o computador quebra. Vê os amigos, fica entediado em festas ruins, sente saudade da época que estava perdido em outro lugar, tenta criar, acha que tudo o que escreve é uma merda, brinca com o irmão mais novo, se emociona em casamentos, se sente perdida mais uma vez, chora de novo, faz projetos, se estressa com projetos, trabalha nos projetos, se sente frustrada com o projeto, chora mais um pouco, sente saudade, sente vontade de viajar, olha pra conta no banco vazia e sente tristeza, olha pras pessoas em volta cheias de certeza e fotos bonitas no instagram, não tem foto pra colocar no instagram, lê alguns livros, pensa em novos projetos, procura ajuda, desiste de planos, sente medo, desiste de novo, de que adianta tentar isso se eu vou falhar? Fica olhando passagens, fica com preguiça, trabalha, não ganha dinheiro, não tem carreira, não vê perspectivas, fica triste de novo, passa o dia inteiro deitada na cama chorando, levanta, acorda cedo e passa o dia trabalhando, vai em reunião, escreve textos, trabalha mais um pouco, come brigadeiro e pensa: o que eu tô fazendo com a minha vida? Existem dias que a gente se sente pedida, às vezes, dura anos. Às vezes uma vida inteira.