Jantar acreano: um pouco de jambu e tucupi na terra do pão de queijo

Jantar temático: de volta para a minha terra.

Foi graças ao blog e alguns amigos em comum que eu conheci a Angrea, uma acreana que mudou para Belo Horizonte na mesma época que eu. Conversando, ela falou que tinha tucupi e estava precisando desesperadamente de jambu para poder fazer uma deliciosa rabada, do jeito que nós acreanos gostamos. Eu não tinha, mas uma amiga estava com as malas prontas para visitar Belo Horizonte, então pedi para ela trazer o jambu.

Já faz um mês que tudo isso aconteceu, mas apenas nessa sexta-feira conseguimos organizar nosso jantar acreano. A rabada ficou por conta do Rhafaell, um amigo acreano da Angrea que já mora na capital mineira há 9 anos e é chefe de cozinha. Ou seja, não preciso nem dizer que estava tudo delicioso, não é? Eu ainda chamei uns amigos acreanos para fazer uma confraternização de acreanos, mas eles não conseguiram ir.

Foi engraçado ver todas as pessoas que não se conheciam no Acre se reunindo pelo mesmo saudosismo do lar, tentando aproveitar as iguarias da terrinha e relembrar um pouco sobre as nossas raízes. Viver em outro estado faz com que a gente reveja a nossa identidade e o que significa ser de onde nós somos, ter as referências que nós temos, a história que construímos e aquela que recebemos de nossos ancestrais.

Eu não sei explicar o que significa ser acreano, vai muito além da saudade de comer tacaca ou de querer comer cupuaçu. Vai muito além da influência dos povos da floresta ou da cidade quente de Rio Branco, essa mistura da cultura seringueira e agropecuária em um lugar só. Vai além do calor infernal do verão amazônico ou das fumaças de setembro. Ser acreano é muito mais que isso.

Ser um acreano em Belo Horizonte é muito mais do que ser alguém fora da sua terra. É estar na cidade, mas com a alma presa à floresta. É tentar se camuflar entre os paulistas, sabendo que não somos um deles (os acreanos chamam de paulista toda pessoa que não é do norte ou nordeste do Brasil. Assim, mineiros, gaúchos, cariocas… Não importa, são todos paulistas). O Acre faz parte do Brasil, mas é como se não fizesse. A impressão é que somos eternos estrangeiros em nosso próprio país. Aproveitamos cada minuto e cada mordomia que viver no centro-sul do país nos proporciona, mas a verdade é que não somos daqui. Nosso coração está a quilômetros de distância.

Foi a falta do Acre que nos reuniu para comer rabada no tucupi nesta noite e preciso dizer: foi a melhor rabada que comi na vida. Estava temperada com saudade e identidade.

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Ainda sobrou rabada pro almoço no dia seguinte.

O Acre Existe: Zoo Humanos

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Admito que eu só gostava de Zoo Humanos porque eles cantavam Artic Monkeys e Strokes nos shows, mas depois que comecei a aprender as músicas autorais fui ficando cada vez mais fã da banda. Como fiquei amiga de alguns integrantes, sou um pouco suspeita para falar sobre o trabalho deles. Para mim, eles fazem parte de uma galera muito bacana que, apesar de todas as dificuldades, movimentam a cultura em Rio Branco.

A banda é formada por João Alab (voz), Felipe Lima (guitarra), Pedro Albuquerque (baixo) e Luiz Fernando (bateria). O som deles é mais ‘pesado’ que bandas como ‘Os Descordantes’ e ‘Los Porongas’. Existe uma pegada ‘rock de garagem’, com riffs de guitarra mais marcados. É bem evidente as influências em Iron Maiden, Led Zeppelin e Arctic Monkeys.

Com cinco anos de estrada, eles lançaram no ano passado o EP ‘Velho Trilhos’, com seis faixas autorais. Dá para fazer o download gratuito nesse link ou então ouvir pelo Soundcloud. Eu recomendo as minhas preferidas, ‘Velhos Trilhos’ e ‘Pontes entre Nós’.

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Mora no Acre e tem um projeto bacana que quer divulgar? Ou então é acreano e mora em qualquer parte do mundo, mas está desenvolvendo coisas legais? Entra em contato, que eu adoraria mostrar tudo o que o Acre e os acreanos estão fazendo de legal pelo mundo a fora.

O Acre Existe: Domingo no Cacimbão

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Todo domingo é a mesma coisa: meu snapchat fica cheio de vídeos no Cacimbão da Capoeira. Até parece que nunca saí do Acre e que estou lá, deitada na grama, ouvindo Los Porongas e Descordantes tocar suas músicas autorais enquanto fico vendo uns curtas no telão.

Para quem não conhece, o Cacimbão da Capoeira é uma patrimônio histórico de Rio Branco, tombado em 1927, que fica na região central da cidade. Durante décadas, o cacimbão abasteceu a cidade. O lugar já foi muito perigoso, tinha uma época que até corpos eram desovados no lugar, mas desde sua última revitalização virou uma praça agradável.

Por isso, eu gosto tanto do ‘Domingo no Cacimbão’. O evento é realizado na época de estiagem, a cada duas semanas, sempre aos domingos. Os idealizadores realizam um movimento muito bacana de ocupação do espaço público com música, arte, apresentações de teatro e tribuna livre para quem quiser divulgar seu trabalho ou luta social.

Aqui em Belo Horizonte, os espaço públicos são utilizados o tempo todo. A praça, o viaduto, a rua, as calçadas. Tudo é utilizado por movimentos sociais e culturais. No Acre, ainda não temos esse costume, mas aos poucos as coisas estão mudando.

Por isso, vida longa ao Cacimbão. E podem continuar mandando vídeos no snapchat que eu tô gostando.

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O Acre Existe: Blóm Fotografia

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Rogério e Jade, o casal por trás da Blóm.

Foi o amor pela fotografia que uniu os dois namorados Rogério Vasconcelos e Jade Oliveira a desenvolver a Blóm Fotografia, uma empresa de fotografia do Rio Grande do Sul. Mas o que eles fazem no ‘O Acre Existe’? Bom, o Rogério é acreano e começou sua paixão pela fotografia quando ainda morava em Rio Branco. Nós dois participamos do Cineclube Opiniões.

O Rogério tem 21 anos e foi morar em Pelotas (RS) para estudar Design Gráfico. A Jade tem quase 20, é autodidata e nasceu na cidade de Rio Grande (RS). Para fazer a Blóm, eles se inspiram na natureza, na Islândia e na música folk. As fotografias costumam ter cores frias e um ar melancólico muito bonito.

Nesse caldeirão de inspirações, também entram os filmes do Wes Anderson, videoclipes, a natureza (principalmente montanhas, pinheiros e névoas) e a fotografia analógica. Outra coisa legal que eles fazem é um pacotinho super fofo para entregar as fotos, é um mimo muito lindo e cheio de poesia.

Eu fiz uma entrevista com o Rogério, que ficou tão legal que vou colocar na integra aqui.

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Como surgiu a ideia do projeto?

Eu e a Jade Oliveira, que também é fotógrafa, começamos a namorar, e começamos a pensar porque não poderíamos trabalhar juntos. Depois de alguns meses germinando a ideia, finalmente criamos a Blóm.

Qual a inspiração para o nome Blóm?

O nome surgiu quando a gente estava ouvindo uma música do The Paper Kites (Bloom) . A gente ama natureza e adoramos o nome. A única coisa que fizemos foi jogar pro islandês, porque a gente ama a cultura islandesa (e claro, as paisagens lindas da Islândia). Para nós, Blóm significa florescer, e a gente tava passando por uma fase meio de renovação, superação, de reconstrução, além da Blóm ter surgido na primavera. Não tinha nome que se encaixasse melhor. A tradução fiel de florescer pro islandês seria Blómgun. Mas é um nome pouco sonoro, além de que ‘gun’ poderia passar a ideia errada de algo com armas. Aí decidimos suprimir o ‘gun’. Blóm significa, na verdade, flor.

Como vocês se organizam? Como é o dia a dia de trabalho?

Nossa rotina é bastante simples. A gente tenta manter o hábito de postar alguma foto todo dia, pra manter a página ativa; respondemos as mensagens que nos mandam e, quando marcamos ensaio, procuramos saber o que a pessoa quer, pesquisamos referências, locação, tudo isso pra definir qual vai ser a sensação que a gente vai passar no ensaio. Depois do ensaio feito a gente edita tudo em alguns dias – normalmente a Jade toma o computador da minha mão e faz isso, ela adora editar foto – e prepara o pacote pra entregar pra a pessoa. Depois disso se repete o ciclo de postar todo dia e etc.

Quais os trabalhos mais legais que vocês fizeram?

Nós fotografamos uma bailarina recentemente, na Praia do Cassino (em Rio Grande-RS), de manhãzinha cedo. Era um trabalho que a gente estava bem empolgado pra fazer e que quase não deu certo. Um pouco antes de sair a câmera se recusava a ligar e quase desmarcamos o ensaio com ela, mas no final não poderia ter dado mais certo. Naquele dia a praia amanheceu com uma névoa que deixou o ensaio ainda mais bonito e ele ficou melhor do que a gente esperava. Teve até cachorro roubando a sapatilha dela e enterrando na areia.

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Vocês já fizeram algum trabalho no Acre? Têm vontade de fazer?

Na verdade a gente tem bastante vontade de ir ao Acre e fazer ensaios por lá, mas eu ainda não tive oportunidade de ir junto com a Jade. Mas a gente tá planejando ir nas férias de verão – e aproveitar a viagem tão longa pra ir conhecer o Peru, que é do ladinho.

Quais os serviços que vocês oferecem?

A gente trabalha principalmente com ensaios femininos em geral e casais, com valores a partir de 390 reais. Pretendemos também fotografar casamentos, mas a gente ainda não teve oportunidade. O contato pode ser feito pela nossa página no facebook mesmo.

Você acha que ser acreano influência de alguma forma no teu trabalho?

Acho que, de certa forma, o meu gosto de viajar pra conhecer natureza se deve por ser Acreano – e por ter tido oportunidades incríveis enquanto eu trabalhei na Biblioteca da Floresta.

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Quer conhecer mais sobre o trabalho desse casal? Então acessa a página do facebook e o Stampsy deles. Se você quiser ver as fotos da Jade, também pode acessar o flickr dela. Eu conheço e recomendo, ela tem um olhar fotográfico muito delicado.

Mora no Acre e tem um projeto bacana que quer divulgar? Ou então é acreano e mora em qualquer parte do mundo, mas está desenvolvendo coisas legais? Entra em contato, que eu adoraria mostrar tudo o que o Acre e os acreanos estão fazendo de legal pelo mundo a fora.

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O Acre Existe: Mercado do Bosque

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Belo Horizonte é uma cidade maravilhosa, cada dia estou mais apaixonada por seus parques, ruas organizadas, pontos turísticos, museus e bares. Mas todos os fins de semana eu sinto falta de um lugar que só existe no Acre: O Mercado do Bosque. Todo fim de semana é a mesma coisa: Saio com algum amigo, vamos no karaokê ou no maletta, ou qualquer outro lugar. No final da noite, dá aquela vontade de comer uma baixaria ou tapioca recheada, mas minha única opção é ir no Rei do Pastel ou no McDonalds da Savassi. Simplesmente não é a mesma coisa.

Infelizmente, não tenho fotos do Mercado e também não é fácil encontrar boas fotos na internet do lugar. Então, para quem nunca foi ao Acre, explico. O Mercado do Bosque é um espaço com pensões e lojas, que funciona praticamente 24h. Durante o dia vende verduras, carnes e pequenos objetos, mas sua verdadeira beleza é na madruga.

Se você precisa comer alguma coisa às 3h da manhã, você vai no Mercado do Bosque. São bolos, salgados, tapiocas, sucos, sanduíches, entre diversas outras iguarias que são vendidos em pequenas pensões, do tamanho de uma cozinha americana (ou menor). Tem também a típica baixaria, que é um prato feito de cuscuz, carne moída, ovo, tomate picado e cheiro verde. É um prato pesado, mas dizem que cura ressaca. A ‘baixaria’ mais famosa é do Café da Toinha.

Descobri recentemente que estão fazendo uma reforma no Mercado do Bosque, o que eu acho ótimo (o lugar sempre foi esquecido pelas administrações públicas), mas espero que não higienize o espaço. A coisa que mais gostava no Mercado do Bosque, além da comida, é que você encontra pessoas das mais diversas classes sociais em um mesmo espaço, confraternizando. Do vendedor de pipoca ao assessor do governador, todos vão no Mercado do Bosque depois das festa, sentam nas mesmas mesas e comem a mesma comida deliciosa. Essa é uma das belezas do mercado.

O Acre Existe: Talita Oliveira

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Dizem que uma imagem vale mais do que mil palavras. O trabalho da fotógrafa Talita Oliveira é uma prova viva deste ditado. Com um olhar sensível, inusitado e um uso impressionante de luz e cor, ela consegue apresentar fotografias que contam histórias.

Talita é uma das minhas fotógrafas preferidas e uma pessoa que admiro bastante. Gosto quando ela faz ensaios de mulheres, porque há um olhar diferenciado ao corpo feminino. São fotos fora do padrão, que tentam mostrar a sensibilidade da pessoa que está sendo fotografada e não uma beleza plástica do corpo. Como Talita é feminista, esse é um reflexo de sua ideologia através da arte.

Ela também é idealizadora do projeto ‘Artista de Plástico’ em que artistas plásticos são entrevistados e fotografados junto com suas obras. Através intervenções urbanas, essas fotos são expostas em espaços públicos. A primeira edição do projeto ocorreu em Rio Branco e a segunda versão foi realizada nas capitais da região norte.

Nesse post, palavras são supérfluas. Vou deixar que as fotos de Talita falem por si.

Icuãni, de Regina Maciel

Gabi Costa

Parto da Gabi, nascimento da Tiê

Intervenção em Porto Velho_ArtistadePlástico_FotoTalitaOliveira (1)

Intervenção Rio Branco_Acre_Artista de Plástico_Talita Oliveira

Solamente Frida

Trindade

O Acre Existe: Cineclube Opiniões

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Há cinco anos (talvez um pouco mais) um grupo de amigos se reuniu para assistir filmes, comer besteira e conversar. E foi dessa forma, bem simples, que começou o Cineclube Opiniões, uma entidade sem fins lucrativos que atua em Rio Branco desenvolvendo atividades cinematográficas. Eu fazia parte desse grupo de amigos e até hoje acompanho (mesmo à distância) todos os projetos que são desenvolvidos.

O Cineclube Opiniões realiza exibições de filmes e debates todos sábados, às 19h, na Filmoteca Acreana. Quando surgiu, existiam pelo menos oito cineclubes na cidade, mas ao longo do tempo uns foram desaparecendo, outros novos foram surgindo, mas o Opiniões foi resistindo. Esse é um projeto que não consigo ser impacial, é muito bom olhar para trás e perceber todas as coisas que construímos juntos, como mostras, oficinas, palestras, mesas redondas, filmes e muito debate. Amizades começaram graças ao cineclube (e romances também).

5629741661_ae6dd4a7af_zA primeira sessão oficial do cineclube começou no Colégio Estadual Barão de Rio Branco (CERB), com pouquíssimos estudantes. No íncio, o projeto pretendia atuar em escolas, mas pegamos uma longa greve de professores e, para não ficarmos parados, começamos a exibir em bibliotecas. Desde então, não paramos.

Também foi através do Cineclube que conseguimos produzir os filmes ‘Pelo Sorriso de Lucy’, ‘A pele dos outros’ e ‘Ao redor de saturno’ do diretor Teddy Falcão, um dos fundadores do cineclube. Desde que conheço o Teddy ele produz filmes, mas com o cineclube, conseguiu aglutinar pessoas para seus projetos.

Tenho muito orgulho do projeto e de todos os amigos envolvidos, que mesmo com vidas cheias de compromissos, tiram um tempo para organizar sessões ou pensar atividades para desenvolver na cidade. Existem ainda muitos planos para o Opiniões e eles estão cada vez mais melogomaniacos. Mas, no fim das contas, ainda é apenas um grupo de amigos que quer ver filmes e conversar. Nós só comvidamos toda a cidade para fazer o mesmo com a gente.

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