A vida é muito curta para ficar se lamentando

Existem dias que tudo dá errado, que você pensa seriamente que deveria ter ficado dormindo, porque aquele é um dia que não valia a pena ser vivido. Tem dias que você tem certeza que os gregos estavam certos e existem vários Deuses no Olimpo tirando uma com a sua cara. Aí no meio da sua crise de emputecimento com a vida, você abre o Facebook e vê uma foto daquela pessoa querida que tá passando por um sério problema de saúde ou lê sobre a história do menino que se suicidou porque era gay e os pais não aceitavam.

Aí lembra que não adianta se fazer de vítima injustiçada. Não vale a pena ficar brigando por besteira, chorando por pequenos problemas. A vida é muito curta para mandar indireta no Facebook ou brigar com o atendente do banco.

Quando vê pessoas passando por problemas realmente difíceis, sente vergonha de reclamar por coisas tão mundanas. Tudo em sua volta começa a ter um sentido diferente. E daí que você tá sem dinheiro? Que teve que adiar sua viagem? E daí que você levou um fora? Que não gostou do que o coleguinho disse nas redes sociais? Você tem saúde, tem família, tem amigos. Você está vivo. É só isso que precisa se lembrar.

Em meio aos pequenos problemas do cotidiano a gente vai esquecendo o que realmente importa. Eu lembro que nos meus últimos dias em Rio Branco olhava para a minha família e pensava em tudo o que iria perder por ficar longe. Até hoje eu evito pensar em como meu irmão caçula tá crescendo rápido, como eu sinto falta dos almoços de domingo ou da saudade de abraçar a minha mãe.

Esse podia ser apenas mais um texto de autoajuda que circula na internet, afinal, existem muitos por aí. Mas é apenas um lembrete para mim mesma: a vida é curta demais para ficar se lamentando.

Eu escolho ter uma família não convencional

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Caros políticos do estatuto da família,

Eu tenho uma família incrível. Ela é formada pela minha mãe, meu pai, a esposa do meu pai e meus três irmãos. Para algumas pessoas pode ser difícil compreender, mas não existe raiva entre a minha mãe e a esposa do meu pai, pelo contrário, as duas se gostam muito.

Meus pais, na época que foram casados, compraram um grande terreno. Atualmente, meu pai vive lá na casa que construiu com sua esposa e seus dois filhos. Mas já foi decidido que minha mãe vai construir uma casa no mesmo terreno e faremos uma pequena vila da família. Como meu pai costuma viajar com frequência a trabalho, a esposa dele está ansiosa para que minha mãe vire sua vizinha. Ela se sentiria mais segura dessa forma e teria alguém para lhe ajudar com as crianças.

Eu fico me perguntando o que vocês pensam da minha família. Talvez digam que minha família não é UMA família, mas duas. A da minha mãe e a do meu pai. Mas não é. Somos apenas uma família.

Quando a esposa do meu pai descobriu que estava grávida, ficou muito assustada em reviver a maternidade. Um dia, enquanto chorava pensando em como sua vida iria mudar, minha mãe lhe consolou e disse que a vinda daquele bebê seria a união da nossa família, transformaria essas duas unidades familiares em uma só. Foi exatamente isso que aconteceu.

Vocês, neste estatuto, querem me obrigar a escolher. Ou minha família é formado por minha mãe e meu irmão, ou minha família é formada pelo meu pai, sua esposa e meus dois irmãos. Eu não vou escolher, porque a minha família não se adequar a uma regra retrógrada que vocês criaram apenas para impedir que homossexuais tenham seus direitos.

Fingir que milhares de famílias não convencionais não existem, excluir delas seus direitos, não vai fazer elas desaparecerem. Não vai fazer as pessoas deixarem de se amar, de se unir e de cuidar umas das outras. Negar direito as pessoas não fará elas ‘escolherem’ outro caminho, porque nunca foi uma escolha para nós.

Vocês dizem que nós, da comunidade LGBT, escolhemos essa vida. Sim, nós escolhemos. Entre sermos infelizes mentindo para todos ou felizes sendo sinceros com nós mesmos e os outros, nós escolhermos a segunda opção. Entre fingirmos amar alguém que nunca conseguiremos amar ou nos permitir sentir o verdadeiro amor, nós escolhermos a segunda opção. Entre termos uma família convencional que não amamos e não nos ama ou termos uma família não convencional que amamos, nós escolhermos a segunda opção.

Eu conheço famílias que fazem parte desse estatuto da família, mas não se amam. O pai odeia a esposa e a trai. A mãe vive em depressão e não queria ter tido filhos. As crianças não recebem amor e são criados de qualquer forma. Eu conheço famílias cristãs que os irmãos não se falam e os conjugues são infelizes e só estão juntos porque são obrigados pelas ‘Leis de Deus’. Eu conheço famílias tradicionais onde ninguém se fala, ninguém se ama. Enquanto famílias não convencionais transbordam amor, porque elas não estão juntas por um estatuto ou uma lei do que é certo, mas porque se amam e querem cuidar uns dos outros.

Eu escolheria mil vezes a minha família não convencional. Eu escolho amar a pessoa que eu me apaixonar e quiser construir uma família, não a pessoa que vocês acham correto ‘pelas leis de Deus’. Leis essas, que vocês ignoram quando convém.

O estatuto da família de vocês não exclui apenas aqueles que vocês querem tirar os direitos, ou seja, os homossexuais. Vocês podem dificultar o quanto quiserem, mas minha família existe. A família dos homossexuais existem. As famílias não convencionais, formados por tios que adotam seus sobrinhos, avós que criam seus netos, irmãos não sanguíneos que vivem juntos e outras diferentes formas de família… Essas famílias existem e vão continuar existindo.

Vocês podem fechar os olhos, mas o mundo nunca vai entrar na caixinha de vocês. Ainda bem.O meu mundo é muito mais feliz do que esse que vocês criaram no papel. No meu mundo eu tenho dois irmãos maravilhosos que não teria se quisesse me adequar ao mundo de vocês. Vocês fiquem aí no mundo de regras, dogmas e leis. Eu escolho viver no mundo do amor, eu escolho ter a minha família não convencional.

Jantar acreano: um pouco de jambu e tucupi na terra do pão de queijo

Jantar temático: de volta para a minha terra.

Foi graças ao blog e alguns amigos em comum que eu conheci a Angrea, uma acreana que mudou para Belo Horizonte na mesma época que eu. Conversando, ela falou que tinha tucupi e estava precisando desesperadamente de jambu para poder fazer uma deliciosa rabada, do jeito que nós acreanos gostamos. Eu não tinha, mas uma amiga estava com as malas prontas para visitar Belo Horizonte, então pedi para ela trazer o jambu.

Já faz um mês que tudo isso aconteceu, mas apenas nessa sexta-feira conseguimos organizar nosso jantar acreano. A rabada ficou por conta do Rhafaell, um amigo acreano da Angrea que já mora na capital mineira há 9 anos e é chefe de cozinha. Ou seja, não preciso nem dizer que estava tudo delicioso, não é? Eu ainda chamei uns amigos acreanos para fazer uma confraternização de acreanos, mas eles não conseguiram ir.

Foi engraçado ver todas as pessoas que não se conheciam no Acre se reunindo pelo mesmo saudosismo do lar, tentando aproveitar as iguarias da terrinha e relembrar um pouco sobre as nossas raízes. Viver em outro estado faz com que a gente reveja a nossa identidade e o que significa ser de onde nós somos, ter as referências que nós temos, a história que construímos e aquela que recebemos de nossos ancestrais.

Eu não sei explicar o que significa ser acreano, vai muito além da saudade de comer tacaca ou de querer comer cupuaçu. Vai muito além da influência dos povos da floresta ou da cidade quente de Rio Branco, essa mistura da cultura seringueira e agropecuária em um lugar só. Vai além do calor infernal do verão amazônico ou das fumaças de setembro. Ser acreano é muito mais que isso.

Ser um acreano em Belo Horizonte é muito mais do que ser alguém fora da sua terra. É estar na cidade, mas com a alma presa à floresta. É tentar se camuflar entre os paulistas, sabendo que não somos um deles (os acreanos chamam de paulista toda pessoa que não é do norte ou nordeste do Brasil. Assim, mineiros, gaúchos, cariocas… Não importa, são todos paulistas). O Acre faz parte do Brasil, mas é como se não fizesse. A impressão é que somos eternos estrangeiros em nosso próprio país. Aproveitamos cada minuto e cada mordomia que viver no centro-sul do país nos proporciona, mas a verdade é que não somos daqui. Nosso coração está a quilômetros de distância.

Foi a falta do Acre que nos reuniu para comer rabada no tucupi nesta noite e preciso dizer: foi a melhor rabada que comi na vida. Estava temperada com saudade e identidade.

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Ainda sobrou rabada pro almoço no dia seguinte.

Reflexões sobre o Projeto Córdoba: Metas, procrastinação e prazos

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Vocês lembram do Projeto Córdoba? Ontem, no dia 18 de agosto, ele chegou ao fim. Foram 50 dias tentando ser uma versão melhor de mim mesma e atingir meus objetivos. No grupo do facebook, nós conversamos um pouco sobre o que achamos da experiência. Decidi, então, escrever um relato sobre o que aprendi durante esses dois meses.

Primeiro, tenho orgulho de dizer que consegui atingir minhas principais metas. Quando comecei o projeto tinha dois objetivos principais: finalizar meu projeto de mestrado e organizar o blog. No final, as coisas não saíram exatamente como queria, mas fiquei com uma sensação de dever cumprido. Minha terceira meta, de assistir um filme todos os dias e ler mais não foi cumprida, mas consegui aumentar consideravelmente, comparado como era antes.

Durante esses dias o principal ensinamento é: eu procrastinava por medo. Durante a primeira semana eu ignorei o meu projeto de mestrado, achando que era muito difícil e iria levar muito tempo. Tinha medo de começar. Mas quando finalmente sentei para fazer… Foi muito fácil. É tanto que terminei uma semana antes do fim do prazo. Ainda não fiz minha inscrição na UFMG, mas semana que vem vou fazer o pagamento.

Quem me conhece sabe que sou acostumada a deixar tudo para a última hora, praticamente a rainha da procrastinação. Esse é um defeito que estou tentando, ao máximo, excluir da minha vida. Sempre senti uma pressão muito grande para fazer bons trabalhos, a vida profissional sempre foi a coisa mais importante na minha vida. Então a procrastinação não era preguiça de trabalhar, mas um reflexo do medo de falhar, de não atender as expectativas, de não ser genial.

O projeto me ajudou a organizar e estabelecer metas, diminuindo essa prática terrível na minha vida. Percebi que sempre fazia metas amplas e subjetivas. Por exemplo, você pode dizer ‘vou ter uma vida mais saudável em 2015’ ou ‘vou caminhar duas vezes por semana e cortar a carne vermelha’. No final, está dizendo a mesma coisas, mas na primeira opção fica subjetivo e não tem uma meta específica, então é fácil não fazer. Na segunda, o comprometimento é maior.

Essa é uma lição que vou levar para vida: fragmentar uma meta grande em pequenas metas. Isso te ajuda a ter um foco maior ao seu objetivo e perceber os avanços nele. Foco, por sinal, é uma palavra que martelou por dias na cabeça.

No começo do projeto, queria aumentar o número de metas. Comecei a meditar, tentei me alimentar melhor, tentei iniciar outros projetos. Aos poucos percebi que estava perdendo o foco e não estava conseguindo avançar em nada. Então voltei ao básico, ou seja, para as minhas três metas principais. Me foquei nelas e disse para mim mesma “Quando você terminar elas, começa um novo projeto Córdoba com novas metas”.

Isso foi importante para perceber que às vezes a gente quer abraçar o mundo. No meio do projeto, me senti bastante desmotivada, perdi o pique e ficava dois ou três dias sem tocar nas minhas metas. Até no blog fazia apenas o mínimo possível. Quando o projeto foi chegando ao final, eu percebi que tinha que correr atrás do prejuízo. Por isso, veio um outro importante ensinamento: a necessidade de prazos curtos.

Quando as metas são muito longas, a gente perde o pique. Por isso é importante a fragmentação, se a sua meta é de longo prazo (dois, três, quatro anos) então é essencial fazer pequenas metas. Dessa forma é até mais fácil perceber os avanços. O planejamento das ações é, portanto, uma parte fundamental do processo. Às vezes a gente vai fazendo as coisas na ansiedade de começar e falha, exatamente, porque não pensou em todas as etapas do processo.

No fim das contas, acho que o projeto realmente me ajudou a ser uma pessoa melhor. Aprendi a planejar minha semana, organizar minhas atividades e trabalhar com metas. Essas são coisas que sempre tive dificuldade e, aos poucos, estou conseguindo melhorar no meu dia a dia. O projeto pode até ter acabado, mas eu já estou com novos projetos e planejando cada etapa desta nova empreitada.

A gente não precisa ser genial

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Eu sempre fui uma criança inteligente. Não era um prodígio (esse era o papel do meu irmão), mas gostava de ler, tirava boas notas e sempre fazia perguntas que deixavam meus pais em saia justa. Também convivi, durante minha infância, com adultos memoráveis. Meu pai é um jornalista respeitado, referência intelectual em seu estado que impressiona qualquer pessoa rapidamente. Minha mãe é uma professora universitária inteligente, excelente gestora e ótima produtora executiva de projetos sociais. Então, eu cresci em volta de seus amigos igualmente inteligentes. Muitos eram referência política do nosso estado e até do país, como o caso de Marina Silva.

Com isso, é de se esperar, que uma pessoa que cresce em um berço intelectual tão movimentado deveria ser um pequeno gênio, não é? Sempre senti que as expectativas eram muito altas e eu deveria atendê-las e supera-las o tempo todo. Não há nada de errado em tentar fazer o seu melhor, mas tentar ser genial é muito cansativo.

Conversando com alguns amigos percebi que esse não era um drama apenas meu, mas de todas as pessoas da minha idade e círculo social. Acho que por sermos pessoas privilegiadas, ou seja, tivemos oportunidade de estudar em bons colégios, irmos para faculdade e trabalhar cedo. Com isso, a carga de responsabilidade logo começou a pesar nos nossos ombros.

Ao mesmo tempo, pela internet, fomos descobrindo pessoas cada vez mais novas que se destacavam no mundo. Era aquela blogueira que aos 20 anos virou empresária, a cantora que virou diva pop aos 22, a universitária que desenvolveu um projeto comunitário muito foda, o rapaz que criou sites e aplicativos revolucionários, a vlogueira que atinge milhares de pessoas.

As referências não param por aí, na timeline do facebook você encontra muitas pessoas que estão fazendo coisas legais, trabalhando em bons empregos, ganhando dinheiro, viajando o mundo ou fazendo um monte de coisas que você gostaria de fazer ou sente que deveria. A sensação é que todo mundo está evoluindo e você está parado no mesmo lugar. Que todo mundo está fazendo coisas geniais e você… Não.

Nessa hora, você, que sempre ouviu dos seus pais que era uma pessoa especial e inteligente, que sempre teve adultos dizendo “nossa, que criança esperta”, sente que é uma grande farsa. Que está mentindo para o mundo e para si mesmo e que, em algum momento, alguém vai perceber isso. Outro dia eu descobri que isso tem nome, é a síndrome do impostor. A diferença é que você nem sente que está fazendo sucesso, como a maioria das pessoas com a síndrome.

No final do dia, você olha ao redor e pensa “Eu não sou genial”, mas o mundo clama para que seja. Ou você é genial, ou será esquecido. E ninguém quer ser apenas mais um na multidão. Quando você vê, começa a ter medos constante de não atender as expectativas, de não atingir seus objetivos, de não fazer nada de memorável com a sua vida. Começa, também, a travar na hora de escrever um texto ou enviar um currículo.

Andei refletindo muito sobre essas coisas ultimamente e cheguei a conclusão de que não quero ser genial. Acho que estamos tão preocupados em fazermos grandes gestos que esquecemos que são as pequenas coisa no dia a dia que realmente fazem a diferença. Esse negócio de ser genial, na verdade, é só um complexo de querer ser melhor do que os outros, alimentar os nossos egos, conseguir curtidas no facebook e tentar suprimir algum carência emocional. Então, é bom analisar, por que eu quero ser memorável? Eu preciso mesmo ser inesquecível? Quem eu estou querendo impressionar, afinal de contas?

É importante também lembrar, em meio as nossas crises produtivas no meio da semana (fruto desde constante medo de falhar na nossa busca pela genialidade) que os gênios nunca foram reconhecidos no seu tempo e que todas aquelas pessoas que conquistaram notoriedade não surgiram do nada. A verdade é que nós nunca percebemos as conquistas quando estamos trabalhando nelas.

É como subir uma montanha, parece que o destino nunca chega. Parece que ainda tem muito chão para subir e você nunca vai conseguir, mas quando menos espera, chega ao mirante. Apenas ao olhar para baixo que percebe o quanto caminhou. É um pensamento auto-ajuda, mas é real.

Então, vamos parar de tentar ser geniais e, talvez, apenas apreciar a subida da montanha? Se a gente pensar menos no quanto temos que ser fantásticos, podemos aproveitar muito melhor o passeio.

Carta ao Pai

Esse negócio de morar longe da família deixa a gente bastante emotiva. Sem ter como mandar presente, no Dia dos Pais escrevi um e-mail para o meu e enviei, com todo o amor. Não fiz homenagem no facebook, porque papai não gosta dessa coisa de redes sociais. 

No fim do domingo liguei para ele e perguntei se tinha gostado do e-mail. Ele respondeu: “Li o texto para todo mundo lá em casa, mas com uma condição. Disse que ia parar de ler na hora que visse alguém chorando. No final, tava todo mundo de costas pra mim, pra que eu não visse o chororô”

Por insistência de alguns amigos e familiares, que queriam ler a carta, coloco ela aqui no blog. 

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Acho que essa é uma das poucas fotos que tenho sozinha com meu pai.

Pai,

Eu sempre adorei datas comemorativas, principalmente depois que você e a mãe se separaram. Era nestas datas que qualquer briga ou indiferença era colocada de lado para comemorarmos juntos, como a família que nunca deixamos de ser. A medida que a família foi crescendo, com a Marina, o Francisco e o Elias, essas datas só foram ficando mais felizes e animadas. Agora elas me lembram de tudo que estou abrindo mão para realizar meus sonhos, me lembram que as pessoas que eu mais amo no planeta estão bem longe (fisicamente) de mim.

Já comecei o Dia dos Pais chorando com todas as homenagens no facebook, porque sou dessas pessoas que choram por qualquer coisa. Mas é muita sacanagem não ter uma máquina de teletransporte para eu ficar pertinho de você nesse dia.

O resto da família que me desculpe, mas acho que todo mundo sabe que nós dois temos uma relação especial. Não que o senhor me ame mais do que os outros filhos, sua especialidade na paternidade é saber ser justo (na hora de dar amor, bronca e até de esquecer na escola), todo mundo recebe igualmente de acordo com a fase da vida e o merecimento das ações. Mas existe um companheirismo entre nós dois que é difícil de negar.

Talvez por eu ser a mais velha, então logo tive que ajudar com os outros irmãos. Ou talvez seja por decidir seguir a mesma profissão que o senhor e o meu avô, então fica aquela ligação da tradição. Talvez porque eu fui a primeira, entre os filhos, que você pôde sentar e conversar sobre cultura, arte, política, o Acre, a floresta e suas pessoas, entre tantos outros assuntos. Hoje em dia o Samuel consegue tomar o meu lugar em todas essas conversar e cria um laço que eu não fui capaz de criar, o amor pela política (sou mais crítica do que militante). Ou talvez seja apenas os nossos espíritos, que já estiveram entrelaçados antes. Só sei que eu sinto muita falta deste teu companheirismo no meu dia a dia.

Foi o senhor que me ensinou muitas coisas que hoje são essenciais para mim, para começar, o meu amor e respeito pela natureza. Logo eu que estava sempre conectada e odiava ficar na sua colônia, porque lá não tinha energia elétrica. Hoje em dia, um dos meus sonhos é poder viajar pela floresta com o senhor (estou cobrando essa viagem desde os meus 18 anos e não vou parar de cobrar até virar realidade). O senhor sempre foi o melhor professor que uma criança poderia ter.

São tantos ensinamentos que seria impossível colocar no papel, mas escolho um que nunca esquecia. Não lembro exatamente as circunstâncias e o motivo da conversa, mas uma vez você sentou ao meu lado quando eu tinha 15 anos e me explicou o que era amor incondicional. O senhor disse que, não importava o que eu fizesse não minha vida, os erros que eu cometesse, as escolhas que eu fizesse ou a pessoa que eu fosse. O senhor continuaria me amando, sempre. Esse sentimento nunca iria mudar. Foi acreditando neste amor incondicional que minha família tem por mim, que eu nunca duvidei por um minuto que eu poderia ser eu mesma. Ainda bem, porque isso evitou muitos dramas na minha vida.

Você também foi o melhor amigo que um filho poderia querer. É raro ter pais que aceitem conversar com seus filhos com igualdade, vejo muitos que se colocam em um pedestal da paternidade, onde são detentores de todo o conhecimento e devemos aceitar sem conversar ou discutir. Com um espírito anarquista, o senhor tratou de jogar fora o pedestal logo que possível. Mais ou menos quando não precisávamos de ninguém lembrando nossos afazeres diários, como escovar o dente ou fazer o dever de casa.

Eu sei que durante esses 25 anos que estive na terra, não foi fácil, nem para você, nem para a mãe. Ter uma filha que está sempre procurando um lugar mais longe para percorrer e um desafio mais alto para vencer, que não se contenta em ficar perto de suas raízes, não deve ser fácil para nenhum pai.

Eu poderia continuar escrevendo muitas páginas sobre o quanto eu lhe amo e todos os ensinamentos que aprendi com nossas conversas, mas existe uma hora que todo texto deve acabar. Eu pensei muito como lhe fazer uma homenagem neste dia, até pensei em falar tudo isso em um vídeo, para o senhor poder ver minha carinha e matar a saudade. Mas ficaria difícil de conter as lágrimas e eu percebi que nada melhor do que oferecer um punhado de palavras, afinal, ter a escrita como minha forma de expressão é a maior herança que o senhor me deu.

Te amo incondicionalmente

Veriana Ribeiro Alves

Sailor Moon, começo das aulas e Síndrome de Peter Pan

Quando tinha sete anos, meu desenho preferido era o anime Sailor Moon, que assistia religiosamente na Rede Manchete. Esse foi o começo do meu amor pela cultura japonesa, acompanhei Cavaleiros do Zodíaco, Sailor Moon, Dragon Ball, Pokémon, Digimon, Yu Yu Hakusho, Naruto, Fullmetal Alchemist, entre muitos outros. Até hoje guardo minha coleção de Mangás da Sakura Card Captors, Guerreiras Mágicas de Rayearth e Fushigi Yuugi e me recuso a jogar fora.

Parei de acompanhar animes quando comecei a faculdade. Entre emprego, estágio, trabalhos da faculdade, projetos pessoais e vida social, tive que fazer uma escolha sobre o que acompanharia no meu tempo livre. Então, abandonei os animes e fiquei apenas assistindo séries americanas.Mas quando você pensa que está virando adulta, vai morar sozinha e pagar suas próprias contas com seu emprego de carteira assinada, a vida te mostra que você ainda é uma criança.

Há alguns anos meu irmão voltou a assistir Naruto e, quando eu comecei a morar sozinha, nosso tempo juntos ficou mais limitado. Sempre fomos apaixonados pela cultura japonesa, então começamos um ritual: Toda vez que ia visitar minha família, nós assistíamos alguns episódios de Naruto. O resultado foi avassalador, porque acabamos apresentando o anime para o Francisco, que é o nosso irmão de 11 anos. O menino agora é viciado e passa o dia inteiro brincando de ninja pela casa.

Esse ritual também me trouxe de volta para o mundo do animes e foi assim que, neste fim de semana, eu decidi deixar as série de lado e fazer uma maratona de Sailor Moon. Como cada episódio é muito curto, deu para assistir toda fase Clássica. Agora estou vendo uma lista de animes que gostaria de rever ou começar a assistir, ao mesmo tempo em que me preparo para voltar a estudar.

A sensação é que estou voltando para os meus 16 anos, saindo do Ensino Médio e começando a vida ‘adulta’. Isso me fez refletir se não estaria passando por alguma Síndrome do Peter Pan, tentando me agarrar a vida infantil em vez de pular de vez na vida adulta. Peter Pan, por sinal, sempre foi uma das minhas histórias infantis preferidas. Assisti e lia tudo relacionado ao tema, tentava voar mentalizando coisas boas e sonhava em conhecer a Terra do Nunca. Talvez eu já soubesse naquela época que ia ser uma eterna criança,

Também sou uma grande fã de animações, do tipo que vai sozinha assistir o novo filme da Pixer e chora no final. Estou viciada na playlist da Disney do Spotify e pensando seriamente em fazer o download dos antigos filmes da Disney, como Pequena Sereia e Rei Leão.

O engraçado é que sempre fui uma pessoa muito madura para a minha idade, adorava morar sozinha e evitava pedir ajuda dos meus pais o máximo possível. Gosto da sensação de ‘pagar as própria contas’ e ser ‘dona do própria nariz’. A parte mais conflituosa de morar em Belo Horizonte é que voltei a depender dos meus pais, mesmo que temporariamente. Já não estava mais acostumada com isso.

Acho que as animações, animes e bonecos são uma forma que alimentar a minha alma infantil, e talvez isso não seja uma coisa ruim, não é? Prefiro ser uma ‘eterna criança’, nutrindo minha curiosidade e ingenuidade, do que me transformar em uma ‘alma velha’ e parar de apreciar as coisas pequenas da vida.