Oscar 2016: Carol

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No Oscar dois filmes se destacam por colocar seus protagonistas em situações extremas que eles precisam sobreviver: Perdido em Marte e O Regresso. Parece que para um filmes ganhar a notoriedade da academia é preciso que seus personagens sejam verdadeiros heróis. Histórias simples, sobre sentimentos, não tiveram muito destaques na premiação. Carol mostra exatamente isso.

Com apenas 6 indicações (a metade de O Regresso), o longa conta uma história delicada e tocante. Baseado no livro ‘The Price of Salt‘, originalmente publicado em 1952, acompanhamos Therese Belivet (Rooney Mara), funcionária de uma loja de brinquedos, que conhece a elegante Carol (Cate Blanchett). As duas precisam enfrentar o preconceito de um relacionamento lésbico na década de 50 e o ciúmes do ex-marido de Carol, que tenta usar a sexualidade da esposa para conseguir a guarda da filha.

Até agora foi o meu filme favorito do Oscar, mas infelizmente, não posso nem torcer por ele, já que o longa ficou de fora na categoria de Melhor Filme. Na minha opinião, uma grande injustiça. Agora resta esperar que uma das atrizes, que estão concorrendo como Melhor Atriz e Melhor Atriz Coadjuvante, receba a estatueta. Cate Blanchett está magnifica, como não poderia deixar de ser, e apresenta uma personagem a frente do seu tempo.

rooney-mara_carol_2015-4Carol está sempre contestando, de forma muito sutil, os conceitos pré-estabelecidos sobre como uma mulher deve agir na sociedade, ainda mais se ela for lésbica. Em uma cena ela observa uma amiga fumar escondido do marido. A personagem diz “Ele não gosta que eu fume”, quando Carol brilhantemente responde “Quem tem que gostar é você”.

Rooney Mara não fica para trás da companheira e consegue, com sucesso, segurar a difícil missão de contracenar com Blanchett. Mara apresenta uma personagem com as dúvidas típicas do primeiro amor homoafetivo, mas sem cair no clichê. Therese é mais segura do que aparente a primeira vista. Uma mulher forte, sem perder a ternura.

O filme todo é construído nos detalhes. Seja na maravilhosa fotografia (com vários quadros dentro de quadros), no figurino ou na trilha sonora. Tudo está ali, feito com muito cuidado e graciosidade. Um excelente trabalho do diretor Todd Haynes.

Talvez por ser bissexual, eu tenha me identificado com a história de uma forma pessoal, achei emocionante, encantadora e chorei em algumas cenas. Muitas vezes as personagens demonstram seus sentimentos através do olhar. Para quem é do mundo LGBT, isso ainda é uma realidade. Sem saber se o lugar que estamos é seguro para demonstrações de carinho, nos resta a troca de olhares. É esse tipo de ternura que encontramos neste filme e que está faltando em outras produções que concorrem ao Oscar este ano.

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Bissexualidade: Lidando com a insegurança alheia

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Quando você vai se relacionar com pessoas, não importa qual o gênero delas, precisa lidar com uma bagagem emocional daquele ser humano. Isso inclui traumas, inseguranças, defeitos, qualidade, dificuldades, manias entre outras coisas. Isso vale tanto para amigos quanto para relacionamentos amoroso. Mas quando você está envolvida romanticamente com uma pessoa, o ciúme e a insegurança são assuntos sempre delicados de lidar. Algumas pessoas têm mais, outras menos. Parece que um bissexual aflora ainda mais a insegurança das pessoas.

Eu não não tenho paciência para crises de ciúmes, nem mesmo as minhas, por isso não consigo me relacionar com pessoas muito ciumentas ou inseguras. Logo, nunca tive grandes problemas com isso. Por isso, demorei para perceber que minha sexualidade causava insegurança nas outras pessoas. Foi através dos meus amigos gay e lésbicas que percebi que isso era um fator determinante para eles.

Tenho uma amiga lésbica que sempre diz que não se relaciona com bissexuais porque teme ser trocada por um homem, então não quer se envolver. Um outro amigo gay disse que teria dificuldade de namorar com um homem bissexual, porque sempre ficaria se perguntado se estava sendo traído por qualquer amigo ou amiga que o outro tivesse. Foi então, que percebi, que as pessoas têm medo de bissexuais.

Como acreditam que essas pessoas têm mais opção, eles temem constantemente que vão ser traídos ou trocados. Existe um preconceito que bissexuais são infiéis e insaciáveis, nunca vão se contentar com apenas um dos gêneros.

Quando eu me relaciono com uma pessoa, eu não estou procurando seus órgãos sexuais. Eu não fico ‘sentindo’ falta de alguma coisa, porque decidi me relacionar com aquela pessoa exatamente pelo que ela tem para me oferecer. Um órgão sexual não vai fazer diferença na equação, porque eu não namoro pessoas pensando em suas genitálias, namoro pessoas pensando em sua personalidade e nos sentimentos que compartilhamos.

Eu tive poucos relacionamentos sérios, mas nunca traí nenhuma das pessoas com que me relacionei. A traição não é questão de sexualidade, é uma questão de caráter. Existem pessoas que acreditam na monogamias e outras na poligamias, não é errado ser adepto de um modelo ou outro, mas enganar o cônjuge dizendo que você acredita em algo que não está disposto a praticar é hipocrisia.

Existem inúmeros casais heterossexuais que terminam por causa de traição, mas ninguém fica falando que todos os héteros são infiéis. Então por que presumem que os bissexuais vão automaticamente trair seus conjugues?Se uma pessoa é bissexual e adepta da poligamia, ela não gosta deste modelo de relacionamento porque é bissexual. A sua sexualidade não influência nisso, mas sua visão de mundo e de relacionamento.

Quando você é bissexual, precisa lidar com inseguranças das pessoas, porque elas logo percebem que não podem te controlar. Se você vai no cinema com a sua amiga, seu namorado (a) já começa a te fazer várias perguntas. Se você decide sair com seu amigos, o mesmo. Bissexuais também conseguem se relacionar com outras pessoas em busca apenas de amizade. Sério. É verdade.

Um relacionamento amoroso não deveria ser para controlar as outras pessoas, mas para compartilhar sentimentos, memórias e momentos. Acho que, se você é o tipo de pessoa que não namoraria um bissexual porque acha que vai ser trocado ou traído, precisa se perguntar se o problema não é com você. Por que você tem medo de ser trocado? Por que você acha que não conseguiria satisfazer sexualmente e emocionalmente uma outra pessoa? Por que você acredita que será traído? Você não se acha digno de um relacionamento? Você acha que não é tão bom (ou boa) quanto as outras pessoas? Por que você acredita que é inferior aos outros?

Não namorar um bissexual fala muito mais sobre suas inseguranças do que sobre o caracter do bissexual em questão.

Bissexual não é bagunça!

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Se você é bissexual e fala abertamente sobre a sua orientação, então já teve que lidar com a frase “Olha, ser gay ou hétero eu entendo. Mas acho que isso aí de bissexualidade é putaria”. Parece que você dizer que é bissexual é a mesma coisa que dizer ‘Vamos fazer uma orgia agora no meio da rua’. Não amigo, eu não quero fazer um ménage só porque sou bi, não vou ficar com qualquer um e não estou eternamente com uma placa escrita ‘aberta pra negócio’ em cima da minha cabeça. Uma coisa é se envolver romanticamente com diferentes gêneros, outra bem diferente é a forma como você lida com o sexo.

Claro, bissexuais percebem que a sexualidade pode ser mais fluida do que as pessoas costumam acreditar, mas não necessariamente querem viver em uma eterna orgia. Tem bissexuais que gostam de ménage, orgias, swing ou coisas do tipo? Tem. Da mesma forma que existem héteros, gays, lésbicas e todas as outras orientações. Você ser bissexual não te deixa mais propenso a gostar destas práticas sexuais.

Todos nós lidamos com o sexo de formas diferentes. Você pode ser o tipo de pessoa que gosta de ter o máximo de experiências possíveis ou se sentir a vontade com o que já conhece. Você pode gostar de transar no primeiro encontro ou ser o tipo de pessoa que só consegue fazer sexo após conhecer a pessoa. Você pode acreditar que o sexo é algo puramente físico ou ser o tipo de pessoa que acredita que é uma troca de energias. E, o mais importante, você pode mudar sua relação com o sexo durante a vida.

Não existe uma forma ‘melhor’ ou mais ‘correta’ de lidar com o sexo. O que importa não é como as outras pessoas lidam com o sexo, mas a forma que você lida com o próprio corpo, com o seu prazer e com o prazer do seu parceiro (ou parceiros), e como vocês respeitam as vontades um do outro. Subentender que bissexuais são promíscuos é uma forma de preconceito.

Acredite, não é legal quando você percebe que alguém está lhe tratando diferente após saber sua sexualidade, e isso pode ocorrer de várias formas. Não somos uma sexualidade, somos pessoas. Vamos colocar isso na cabeça?

As pessoas acreditam que bissexuais sempre vão ficar com qualquer pessoas, mas eles também podem ter ‘tipos’, da mesma forma que héteros e homosexuais. Eu sei qual o tipo (de homem e mulher) me desperta interesse, física e emocionalmente. Só porque eu sou bissexual, não significa que vou me sentir atraída por todas as pessoas que povoam o planeta terra.

O importante é lembrar que cada pessoa é diferente, a bissexualidade não determina como uma pessoa vai lidar com diferentes assuntos da sua vida sexual e amorosa. Antes de julgar alguém, primeiro conheça. Você pode estar afastando ou julgando errado pessoas que poderiam acrescentar coisas boas na sua vida.

Outro erro comum é achar que bissexuais são infiéis. Eu tive poucos relacionamentos exclusivos na minha vida, mas nunca traí meus parceiros. Mesmo assim tenho que ouvir ‘não sei se posso confiar em bissexuais’ ou ‘eu não conseguiria namorar uma bissexual, porque sempre iria pensar que ela tá me traindo’ o tempo inteiro. Quando você é bissexual, precisa lidar muito com a insegurança das outras pessoas, mas isso já é assunto pra outro texto.

Lembrando, se você quer compartilhar sua história (anonimamente ou não) ou está em dúvida se é bissexual, pode me mandar um e-mail, mensagem no facebook, sinal de fumaça. Eu adoraria conversar com vocês.

Bissexualidade: A descoberta

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Esse possivelmente vai ser o texto mais pessoal da série sobre bissexualidade. Já faz um tempo que decidi diminuir o que compartilho da minha vida pessoal na internet, mas acho que é importante detalhar este momento, porque o outro se identifica no seu drama e vice e versa. Às vezes nós passamos por algo que o outro está aprendendo a lidar. Por isso, decidi contar aqui a história de como descobri minha bissexualidade. Porque, no meu caso, foi uma descoberta.

Lembrando: Como uma história pessoal, ela não pode ser usada como um padrão. A ‘descoberta’ da bissexualidade é diferente para cada pessoa, então eu só posso falar sobre a minha experiência. Cada um vive um contexto de vida e lida com esses sentimentos de uma forma diferente, então as histórias podem ser as mais diversas. Essa é a minha.

Ainda me lembra da primeira vez que me falaram que eu gostava de mulheres. Eu tinha 18 anos, trabalhava em uma emissora de televisão e um dos meu colegas de trabalho perguntou se eu gostaria de ficar com uma amiga dele. Quando eu disse que não ficava com mulheres ele riu e disse: “Amiga, você gosta de mulheres. Dá pra ver, se não quiser ficar com ela só diz que não faz teu tipo, mas não precisa mentir”. Ele disse em tom de brincadeira, mas era evidente que ele achava que eu era lésbica. Eu retruquei dizendo que nunca tinha ficado com mulheres, mas que se isso mudasse eu avisava.

Ele me tirou do armário antes mesmo de eu saber que estava em um. A verdade é que, até os 19 anos, eu nunca tinha ficado com mulheres ou pensado no assunto. Eu tinha conhecido uma garota, um ano antes, que achava linda, mas minha relação era muito mais de admiração do que física. Eu prestava atenção quando ela passava e brincava com meus amigos que estava apaixonada, mas eu não tinha vontade de beija-lá ou namorá-la. Eu a achava bonita e queria ser como ela. Era bem diferente da relação que tinha com o sexo masculino.

Então, na minha cabeça, eu era hétero. Até que aos 19 anos eu conhecia uma garota. Ela era novata na universidade. No começo, apenas achava ela engraçada e divertida, estava muito mais interessada em um dos seus amigos, mas com o tempo, começei a perceber que tinha sentimentos por ela. Quando a via, eu queria beijá-la. Ao desobrir que ela também ‘beijava meninas’ minha vontade apenas aumentou. E um dia, após uma festa, eu beijei ela.

Na época eu não queria relacionamentos sérios e ela não queria ‘estragar a amizade’, então nossa relação não passou daquela festa. Depois disso, apareceram outras garotas interessantes e eu me envolvia com elas, sempre da mesma forma. Em festas. Nada sério.

Não contei para os meus pais inicialmente, mas não por medo de me assumir ou ser rejeitada. Meus pais são pessoas que sempre me deram segurança e, mesmo sabendo que a notícia não seria recebida da forma mais feliz do mundo, eu tinha certeza que não lidaria com a rejeição deles. Apenas não via a necessidade de me assumir, já que gostava de manter eles longe da minha vida amorosa. Como não queria namorar com ninguém, não apresentava os homens com quem me envolvia. Então por que iria apresentar as mulheres? Eu fugia de qualquer tipo de amarra e não iria apresentar para eles pessoas que não pretendia manter na minha vida.

Nessa época, raramente ficava com mulheres mais do que um vez. Então cheguei a pensar que não era bissexual. Afinal, se eu fosse ‘bi’ ou ficaria com mulheres além desses ambientes, não é? Olharia para mulheres na rua. Eu não fazia isso.

Mas também não ficava muito tempo refletindo sobre minha sexualidade naquela tempo, até que fiquei com uma mulher mais velha e, no dia seguinte, desejei ver ela de novo. Corri atrás de um amigo em comum para conseguir o telefone e ficamos por um mês. Meu medo de compromisso na época me fez desaparecer quando as coisas começaram a ficar sérias, mas isso mudou a minha vida. Por um mês, eu tive vontade de ir ao cinema, comer um Tacacá na praça, andar de mãos dadas, o pacote completo. Não senti vergonha ou medo de fazer nenhuma dessas coisas, foi divertido enquanto durou. Pena que eu não podia ouvir a palavra ‘namoro’ sem sair correndo apavorada, então quando meus amigos começaram a me perguntar sobre ela… Eu fugi do relacionamento.

Foi após essa moça que percebi que era bissexual. Minha atração por mulheres não estava mais associada com alguns beijos em festas. Apesar do ‘relacionamento’ não ter utrapassado um mês, eu consegui perceber que havia ali um sentimento. Eu me interessava por homens e mulheres, então era bissexual.

Por muito tempo eu não usei o termo bissexual. Até porque, muitos dos meus amigos não precisaram me perguntar se eu era gay ou hétero. Eles estavam lá quando começei a sair com mulheres, também estavam presentes quando continuei ficando com homens. Essa é a vantagem de amizades longas, eles vão descobrindo sobre você junto contigo.

Descobri minha bissexualidade de uma forma bem natural. Nunca pensei que era lésbica, eu sentia atração por homens e sabia disso. Também não fiquei me perguntando que sentimentos eram aqueles que tinha por mulheres, simplesmente vivia. Nunca passei por uma crise com minha sexualidade ou medo de sofrer algum tipo de preconceito. Uma das minhas tias se envolvia com homens e mulheres, a mãe de um amigo também. Então, para mim, aquilo não era algo para sofrer ou ser analisado, eu simplesmente gostava de meninos e meninas.

É assim até hoje, não mudou com o passar dos anos, apesar de algumas pessoas ainda acharem que estou ‘passando por uma fase’ ou ‘indecisa’. Como disse um amigo meu, há alguns anos: “No começo eu pensei que a Veriana era indecisa. Agora eu percebo que ela é a pessoa mais bem decidida que eu conheço”. Quando você é bissexual você precisa saber extamente o que você quer… E o que você não quer. Eu não me envolvo com qualquer pessoa que conheço, também não sinto tesão por qualquer homem ou mulher. Mas sobre isso, vamos falar em outro texto. Esse já está ficando muito longo.

E vocês? Como foi esse momento de descoberta? Você passou por conflitos internos, dificuldades para aceitar? Ou foi algo que aconteceu naturalmente? Me conta a sua história também! 

A invisibilidade dos bissexuais

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Bissexuais: Onde vivem? O que comem? Como se reproduzem?
Descubra hoje no Globo Repórter neste blog.

Já fazia algum tempo que eu queria escrever sobre bissexualidade.  Desde que descobri o The Gay Women Channel, um canal no youtube voltada para o público lésbico, percebi que muitas das minhas experiências de vida eram diferentes das histórias contadas nos vídeos. Mesmo me relacionando com outras mulheres, existem coisas que não me identifico. Ao mesmo tempo, muitas questões que fazem parte do meu cotidiano simplesmente não acontecem com lésbicas.

Isso me impulsionou para pesquisar mais sites e vídeos sobre bissexualidade e descobrir, sem muita surpresa, que este tipo de informação ainda é muito limitada. O número de sites específicos para esse público é muito menor e normalmente está relacionado com sites gays ou lésbicos. Então decidi fazer uma série de textos abordando o tema da bissexualidade. Não sou nenhuma especialista nas questões de gênero, então todos os conteúdos vão ser baseados nas minhas vivências.

Por isso, os rapazes bissexuais podem não se sentir contemplados em alguns pontos, pois irei usar durante os textos exemplos e visões da bissexualidade feminina. Se algum homem bissexual quiser escrever um texto específico sobre sua experiência, só entrar em contato.

Para começar, quero falar sobre a invisibilidade dos bissexuais. Isso não decorre apenas da falta de informação ou espaços específicos na internet, é uma prática cotidiana. As pessoas simplesmente não acreditam que bissexuais existem e nós precisamos, constantemente, validar nossa sexualidade. Algo que, muitas vezes, não acontece se você é lésbica, gay ou hétero.

É comum as lésbicas escutaram ‘Mas vocês são lésbicas mesmo? Provem!” de homens idiotas na baladas, mas elas nunca vão ter sua sexualidade questionada por outras lésbicas ou gays. Mas se você é bi, qualquer um pode duvidar da sua orientação sexual, até mesmo membros da comunidade LGBT.

Isso apenas piora em uma relação amorosa. Se você começa a se relacionar com uma mulher, é como se finalmente tivesse ‘saído do armário’. Se o relacionamento terminar, toda a experiência pode ser vista como uma ‘experiência ‘ ou ‘aventura’, principalmente se você decidir se relacionar com um homem depois.

É como se você tivesse que colocar suas relações em uma balança e ficar exatamente com a mesma quantidade de homens e mulheres, se não, simplesmente não é considerado pelos outros como bissexual. Mas não é assim que a vida segue, você não escolhe por quem vai se apaixonar, ou o gênero dessa pessoa. Ter mais relações com um determinado gênero não te faz mais ou menos bissexual.

Estar relacionado com um determinado gênero também não faz com que você não sinta atração pelo outro, você só terá que optar entre ter um relacionamento exclusivo ou não, como qualquer pessoa. E não, bissexuais não necessariamente preferem o políamos. Mas isso é assunto para um outros post.

É difícil fazer parte de uma comunidade (a LGBT) que não te reconhece ou aceita completamente. Claro que bissexuais também encontram muito amor nesse grupo, mas parece que são vistos como menores dentro do movimento. É como se o restante da comunidade acreditasse que iremos ‘virar héteros’ para ter os privilégios da sociedade assim que precisarmos, quando na verdade, é o contrário. 

Em outros textos vou abordar melhor os dramas que nós, bissexuais, precisamos enfrentar. Questionamentos que são levantados por héteros ou homossexuais, dúvidas, inseguranças, descobertas, etc.

Para quebrar (um pouco) essa invisibilidade bissexual, vou me apresentar.

Prazer, meu nome é Veriana. Sou bissexual. Não gosto de escutar Ana Carolina ou Maria Gadu, mas adoro gatos. Amo música pop, mas não tenho paciência para acompanhar esse mundo. Ainda estou aprendendo a me maquiar e não suporto salto alto. Não estou confusa. Não estou indecisa. Não sinto falta de nada.

Eu existo.

Para saber mais sobre a invisibilidade bissexual, dá uma olhada nesses textos:

http://blogueirasfeministas.com/2014/09/invisibilidade-bissexual/

http://blogueirasfeministas.com/2014/09/meg-barker-um-circulo-vicioso-de-invisibilidade-bi/

http://biscatesocialclub.com.br/2014/09/sou-bissexual-nao-sou-indecisa/

http://www.bisides.com

Faking it e a paixão pela amiga hétero

Eu assisto qualquer porcaria. Juro. Minha tolerância é bem alta, então para eu não gostar de uma série ou filmes, ele tem que ser bem ruinzinho. Tem algumas séries, por exemplo, que eu acompanho mesmo sabendo que não são boas. Tem aquele roteiro batido, você sabe exatamente como tudo irá se desenrolar, mas no final, eu fiquei um dia inteiro assistindo.

Esse é o caso de Faking it, a série da MTV que conta a história de duas amigas, Karma e Amy. Elas estudam em uma escola super liberal, no qual os ‘underdogs’ são populares. Quando as duas são confundidas com um casal lésbico, acabam virando as principais concorrentes para ganhar a coroa do baile de Boas Vindas. Com isso, elas começam a fingir que são um casal para serem populares. Só que a ‘brincadeira’ acaba ficando séria quando uma das meninas começa a perceber que está apaixonada pela melhor amiga.

A série não é ruim, mas é uma série adolescente. Com histórias para atender um público entre 14 e 17 anos. Ela tem ótimas referências lésbicas e brincam com os vários estereótipos do mundo gay. O episódio que Amy vai a uma bar lésbico pela primeira vez e eles fazem uma referência de Mean Girls, só que com os tipos de lésbicas, é simplesmente hilário. São apenas 20 minutos por episódio, sempre com muito humor. Simplesmente aqueceu o coração da adolescente lésbica de 15 anos que existe dentro de mim (e nunca irá embora, tenho certeza).

‘Faking it’ vai estrar a terceira temporada no dia 31 de agosto e eu já estou esperando ansiosa. Assisti a primeira e segunda temporada em apenas um dia. A série é perfeita para as novas lésbicas, as famosas baby dykes, que ainda estão tentando entender sua sexualidade. Acho legal ter uma série voltada para o público adolescente que tem gays, lésbicas, bissexuais e héteros em pé de igualdade na trama. Enquanto isso o Brasil fica fazendo boicote para novelas das nove com casal lésbico que quase não se beijam.

A série bate muito na tecla da paixão pela amiga hétero, que aparentemente é uma coisa que acontece muito no mundo lésbico, mas eu nunca vivi. Acho que eu simplesmente não sinto atração por garotas héteros. Mas as minhas amigas lésbicas se identificaram com a história de Karma e Amy e dizem que a série aborda com precisão os medos de uma adolescente que se apaixona pela melhor amiga e tenta entender esses sentimentos.

Na minha vida tem cor (e no meu facebook também)

Eu queria mudar de assunto. Juro. Tô com uma lista de textos sobre música, filmes e livros para escrever, mas vocês não facilitam e vai ter texto, de novo, sobre a imagem colorida no facebook. É possível que esse texto seja mais raivoso do que gostaria, mas se teve uma coisa que eu aprendi com “Divertida Mente” é que todos os sentimentos têm igual importância e devemos respeitá-los.

Então, em respeito a minha raiva, aí vai:

Sexta-feira foi um dia lindo. Desde que os EUA permitiu o casamento igualitário, vi um monte de pessoas mudando a foto do facebook em comemoração. A palavra-chave está aí, comemoração. Não foi um protesto silêncioso, não foi uma imagem para lembrar a quantidade de pessoas que morrem por homofobia, foi apenas uma simples comemoração. Foi pela simbologia do ato.

Da mesma forma que algumas pessoas comemoram uma promoção, um novo emprego, um viagem de férias, etc. Existem vários motivos para se comemorar no facebook, muitas pessoas decidiram comemorar o casamento gay nos EUA. Comemorar não vai diminuir as mortes de homossexuais, mas a vida não pode ser feita olhando apenas o lado ruim. A comunidade LGBT leva porrada todos os dias, literalmente e figurativamente, então comemorar uma vitória entre tantas lutas revitaliza forças.

Desde que colori meu avatar passei por várias fase. A primeira foi linda, ver todo mundo se pintando e sendo feliz. Por horas, nenhum comentário fundamentalista. Acho que até esses estavam assustados com tanta imagem colorida brotando no facebook. Depois veio o contra ataque. Pessoas questionando o ato de comemorar, questionando a causa LGBT, dizendo que existem outras lutas mais importantes. Teve também gente que na verdade não apoia a causa gay, mas tava mudando a foto do facebook (e com isso a galera reclamando da ‘modinha’).

11665428_10203764362023410_4153831904489450594_nPor isso, minhas considerações raivosas:

1) Gente, na boa, não me venham dizer que existem lutas mais importantes que a causa LGBT quando não é você que tá sendo expulso de casa por ser gay ou precisa se preocupar se vai apanhar na rua se ficar de mãos dadas com seu namorado ou namorada. Se isso não acontece com você, ótimo, mas não diminua a dor do outro. Compaixão e empatia é para levar pra vida.

Desde que eu mudei a foto do meu facebook tive que ouvir amigos lamentando que queriam mudar a foto, mas não podiam porque se não teriam que lidar com uma briga dentro da família. Ouvi histórias de pessoas que peitaram essa briga e foram expulsos de casa. Ouvi histórias de pessoas que foram xingadas em seus próprios facebooks por deixar a vida mais colorida.

Essas histórias me atingem. Eu tenho uma família que me ama, me apoia e me protege. Que muda a foto do seu facebook junto comigo. Mas nem todos os meus amigos têm a mesma sorte que eu. Então, por eles, continuo colorida.

2) Uma amiga disse que em vez de estamos comemorando o casamento, deveriamos nos preocupar com as mortes e abandonos de homossexuais. Eu concordo, mas uma coisa não excluí a outra. Comemorar uma vitória não impede de continuar lutando.

Tem mais, acho que o casamento igualitário é o começo de tudo. Deve ser a primeira conquista da comunidade LGBT, antes mesmo da luta contra a homofobia. Não porque seja mais importante, mas porque é como tudo começou. A homofobia é uma reação, não a causa. É uma reação ao amor de todas as cores. Os homofóbicos reagem com violência quando os privilégios viram direitos. Quando as pessoas começam a demonstrar afeto em público. Quando o casamento é naturalizado. Temos sim que combater a homofobia, com muito fervor, com todas as nossas forças, mas ela só vai perder forças quando amor for naturalizado. Para naturalizar o amor, é preciso permitir, é preciso dar o direito das escolhas.

3) Cada um faz o que quer da sua vida, não é? Não. Uma pessoa LGBT não podem escolher livremente. A escolha delas vem com um peso extra: contrangimento, xingamentos, humilhações. Vocês, hetéros, podem fazer o que querem da vida de vocês. Nós, da comunidade LGBT, precisamos lutar, todos os dias pelo direito de escolha.

4) Também não me venha dizer quais causas eu preciso lutar. Eu sou militante LGBT, ambientalista, feminista, voluntária de adoção de animais, faço doações mensais para a UNICEF, todos os anos eu faço doação de roupas para famílias carentes. Eu não me limito a uma foto no facebook, se você ou seus amigos se limitam, não é a minha luta ou minha foto no facebook que deve ser questionada. Eu não espero ninguém me chamar para mudar o mundo, eu vou lá e faço. Do meu jeito, como posso, eu tento fazer do mundo um lugar melhor.

Desde que eu mudei a foto do facebook vi muita gente reclamando. A intenção era deixar a foto colorida por apenas um dia, mas eu gosto tanto de incomodar, que agora ela vai ficar por tempo indetermidado. Se continuarem reclamando, vou colorir outras fotos. Vocês podem ficam com suas vidas sem cor, de amor limitado e cheio de condições. Eu fico com a minha vida colorida, com amor livre e incondicional. No meu amor, ninguém vai colocar regras.