Amor Amargo e Relacionamentos Abusivos

Ainda na vibe dos vídeos para o youtube, também resolvi resenhar o livro ‘Amor Amargo’ da Jennifer Brown, que li na semana passado. O livro é muito bom e, aproveitando o tema da leitura, falei um pouco sobre relacionamentos abusivos e as reflexões que tive enquanto acompanhava a história.

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Jessica Jones e as super-heroínas de todos os dias

tv_jessica_ritter1_index1Já aviso logo que tem spoiler, não vem ninguém reclamar depois

Eu não sou muito fã de séries de super heróis, então assim que foi anunciada a série de Jessica Jones, apenas ignorei. Não assisti Demolidor, The Flash ou Arrow. Só que após a última estreia da Netflix, começaram a surgir artigos falando como Jessica Jones abordava os relacionamentos abusivos. Foi a partir daí que comecei a criar interesse pela nossa querida investigadora.

É essa metáfora que salva a série e constrói um clima muito mais interessante para a adaptação. Alguns plots secundários são tão desinteressantes que vão sendo cada vez mais esquecidos, como toda a história de Simpson. A série tem alguns problemas de desenvolvimento ao decorrer dos 13 episódios, chegando a ficar cansativa em alguns momentos, mas sempre recupera o fôlego.

Jessica limita usar seus poderes para destruir cadeados e abrir portas, eles não são importantes. O que eu achei fantástico, a série não precisa de cenas dela voando ou efeitos especiais para ser boa. Jessica parece uma versão mais sombria de Verônica Mars, que entre investigações e comentários sarcásticos, faz sexual casual, se culpa pelos erros que cometeu e vira a noite alimentando seu alcoolismo. Em meio a isso, precisa se reerguer de um relacionamento abusivo.

david-tennant-jessica-jones2O vilão, Kilgrave, é mais aterrorizante por seu caracter do que pelo seu poder de controlar mente. E o pior: você vai reconhecer muitos Kilgraves na vida real. Ele não é um personagem caricato, são diversas camadas que compõem o vilão, deixando-o cada vez mais real. Em algum momentos você sente pena dele, acredita que ele realmente ama Jessica, que tudo seria melhor se ela aceitasse ter um relacionamento com ele. Até que você lembra que ele controlava e torturava as pessoas a sua volta, além de estuprar todas as mulheres com quem se envolveu. Como ela mesma explica para o vilão, forçar sexo ainda é estupro, mesmo que você pague um jantar e leve a pessoa em um hotel cinco estrelas.

Kilgrave encanta e enoja. Ele nem precisaria dos seus poderes para manipular pessoas. Se vê por uma ótica distorcida em que todas as sua ações são coerentes e os outros estão distorcendo tudo de uma forma pior. Ele acredita que forçar sexo não é o mesmo que estupro, que forçar alguém a amá-lo é o mesmo que ser amado. Ele não ama Jessica, ele apenas não suporta a ideia de não poder controla-lá. No final das contas, Jessica e Kilgrave não precisariam ter poderes para contar uma história real, cruel e avassaladora.

Além da história sobre relacionamentos abusivos, o seriado ensina como fazer personagens femininas no entretenimento. As super-heroínas nunca me representaram nas telas, até aquelas que eu adorava nos desenhos, como a Vampira de X-Man, me decepcionavam em qualquer adaptação. Elas são sempre estereotipada, bidimensionais e desinteressantes porque apresentam um perfil limitado do que deveria ser uma mulher, seja com super poderes ou não. É a mocinha indefesa, a vilã sedutora ou a heroína legal, mas não tão boa quanto o herói homem. Mas não Jessica Jones.

A série ganha pontos por apresentar uma elenco repleto de mulheres diferentes do que vemos em produções televisivas, principalmente de super-heróis. Trish não permite ser rotulada como garota em defesa que precisa ser salva, Hope não aceita ser a vítima de Kilgrave que será salva por Jessica, as três personagens lésbicas não se limitam a sua sexualidade e apresentam uma diversidade rara na representação da comunidade. Todas as mulheres são reais.

Leia mais sobre o tema aqui:

Abusos, Jessica Jones e Kilgraves da vida real

Esqueça os super-heróis: a Marvel fez uma série sobre abuso

O que podemos aprender com Jessica Jones?

Abuso e manipulação: Jessica Jones é a produção mais brutalmente real da Marvel

Valentina, Primeiro Assédio e Jout Jout: Não adianta tentar calar as feministas

Já faz alguns anos que me identifico como feminista. Na época que descobri o que isso significava, não tinha muitos lugares para me apoiar. Se no Brasil o assunto quase não era discutido, imagina no Acre. A internet foi o local onde comecei a estudar, conversar, discutir e pensar sobre o papel da mulher na sociedade.Apesar de amar o tema, nunca tive muita paciência para fazer uma pesquisa profunda sobre as diversas teorias de gênero. Meu aprendizado era muito mais no dia a dia, aprendia mais de blogueiras feministas do que de livros. Acredito que ainda tenho muito o que aprender, mas não tenho uma formação limitada.

Nesses anos de feminista, fui aprendendo a escolher minhas batalhas. Não é mais qualquer post no facebook que me faz ir lá e escrever um textão. Quem não quer aprender, não vai magicamente ouvir a razão e os argumentos. Foquei minhas energias em tentar discutir com quem quer aprender, ensinar quem ainda está iniciando nessa jornada e conversar com aqueles que mantém a mente e o coração aberto para o diálogo. O que vem me trazendo muita felicidade é o aparecimento de jovens feministas, garotas entre 15 e 19 anos que já falam com propriedade sobre o tema. Coisa que eu nem imaginava fazer nessa idade! A internet é um lugar que proporcionou informações para essas garotas, e talvez por isso estão tentando nos calar nesse lugar.

Nas últimas semanas só se ouviu falar em feminismo. O caso de assedio da participante Valentina, no Master Chef Jr, evidenciou que o abuso de crianças do sexo feminino está muito mais associado ao machismo do que a pedofilia. Se crianças fossem abusadas eventualmente, poderíamos culpar a pedofilia, que é uma doença no qual se pode realizar tratamentos (isso já acontece nos EUA, por exemplo). Mas quando milhares de mulheres relatam situações de assédio na infância, através do movimento Primeiro Assédio, feito pelo Think Olga, percebemos que não se trata apenas disso. Além de pedofilia, devemos falar de machismo. Do motivo que faz com que homens acreditem que garotas de 12 anos já podem ser sexualizadas ou por que jornalistas acham certo perguntar para atrizes de ‘O Carrossel’ sobre relacionamentos. 

Eu não lembro do meu primeiro assédio, nem sei como começou. Mas aos 13 anos eu já sabia o que era estupro, já tinha medo disso e quando um homem tentou me levar para um lugar isolado dizendo que meu pai estava me chamando na outra entrada do prédio, sendo que eu sabia que meu pai estava em casa, dei um jeito de sair correndo. Eu sabia que ele queria me estuprar.

Eu lembro de uma amiga contando, aos 12 anos, que um homem havia se masturbado do lado dela no ônibus. Até hoje, aos 26 anos, eu tenho medo de sentar entre a janela do ônibus e homens desconhecidos, achando que alguém pode fazer o mesmo comigo. Da mesma forma tenho medo de andar sozinha na rua após o anoitecer, atravesso a rua quando vejo uma obra ou borracharia, não passo no meio de um grupo de homens na rua, penso duas vezes antes de colocar um short, entre tantas outras limitações diárias que eu constantemente vou me obrigando a ultrapassar.

O abuso está presente todos os dias na minha vida e é por isso o vídeo ‘Vamos Fazer um Escândalo’ da Jout Jout fez tanto sentido para mim. Está na hora de pararmos de ficar caladas. É por isso que a redação do Enem me emocionou. É por isso que não paro de falar sobre isso nas redes sociais. Mas o que acontece quando as mulheres começam a falar? Os machistas tentam nos calar.

Após toda a polêmica envolvendo Valentina e o Primeiro Assédio, finalmente conseguiram derrubar uma das piores páginas do facebook: Orgulho de Ser Hétero. Um lugar que destila discurso de ódio contra mulheres, comunidade LGBT e negros, comandada principalmente por mascus (um grupo de ódio que existe na internet e que faz ameaças de morte para mulheres e defende o estupro corretivo). Quando a página caiu, eles começaram a fazer um movimento para derrubar várias páginas consideradas feministas: “Feminismo Sem Demagogia”, “Moça, você é Machista”, “Cartazes e Tirinhas LGBT” e a página da Jout Jout foram alguns dos alvos derrubados por esse grupo.

O blog da feminista Lola também foi atacado, sendo que fizeram um blog fake e denúncias para a universidade onde ela trabalha, tentando demiti-la por ‘queimar bíblia’ e ‘fazer aborto em estudantes’, coisas que obviamente são mentiras. Há anos ela recebe ameaças de mascus, e-mails com a foto de sua casa, do seu marido e ameaças para sua mãe.

As páginas estão tentado voltar, por enquanto apenas a da Jout Jout conseguiu. Mas essa ‘guerra’ virtual só mostrou como o machismo é perigoso, latente e precisa cada vez mais ser combatido. Os mascus já ameaçaram matar estudantes da UnB (apenas mulheres), mas dizem que são as feministas que querem arruinar o mundo. Desculpa, mas nunca vi nenhuma feminista tentando matar estudantes. O machismo mata pessoas todos os dias, o feminismo salva. Acho que podemos ver que eles não são nada parecido.

Eles estão fazendo essa guerra porque querem continuar abusando de mulheres a partir dos 9 anos. Você realmente concorda com isso? Se não concorda, então o feminismo é necessário. Porque são as feministas que combatem todos os dias esses comportamentos machistas.

Nesse guerra, meu lugar é claro. Eu fico com o feminismo e não adianta tentar nos calar. Nós vamos fazer um escândalo.

5 séries feministas que valem a pena assistir

Nem sempre é possível se identificar com as personagens femininas em filmes e seriados, porque muitas vezes elas são ‘bidimensionais’ ou seja, são representadas por um estereótipo. Nisso temos a mulher gostosa, a mulher burra, a mocinha que precisa ser salva, a nerd que não tem namorado, etc. Nós mulheres ansiamos por personagens complexas, que tenham tramas bem desenvolvidas. Quando decidem fazer isso, temos produções melhores e personagens marcantes.

Por isso, decidi fazer uma lista de séries feministas, não apenas por apresentarem boas personagens do sexo feminino, mas por tocar em assuntos como casamento, aborto, filhos, estupro, religiões, etc. Essas séries mostram que é possível, sim, fazer entretenimento de qualidade, empoderando mulheres. Se você ainda não assiste uma dela, pode começar. Se já assiste, me abraça e vamos esperar juntas por novas temporadas!

É importante ressaltar que, mesmo as séries abordando temas feministas e tendo personagens femininas ‘fortes’, independentes e inteligentes, nem de perto temos uma boa representatividade das mulheres. Poucas dessas séries representam mulheres negras ou latinas, a maioria das séries ainda é para um feminismo branco de classe média. Mas cada uma destas série é um passo a frente na representação das mulheres na mídia.

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The Good Wife

Kalinda, Alicia, Diane. Com tanta mulher foda, é impossível não se apaixonar pela séria ‘The Good Wife’ que de boa esposa só tem o nome. A história começa com Alicia Florick, uma advogada, voltando ao mercado de trabalho após o marido, procurado do Estado, ser preso em um esquema de corrupção e prostituição. Alicia evolui no decorrer das temporadas, deixa de ser uma dona de casa submissa para ser uma empoderada advogada. Nem por isso, ela deixa de lutar internamente com seu desejos e as expectativas da sociedade. Mas é Alicia que toma as decisões, sempre, mesmo que você não concorde.

Na série temos também outras duas personagens sensacionais, a misterioso Kalinda e a determinada Diane Lockhart. Kalinda é uma das minhas personagens preferidas da televisão. É bissexual, tem problemas com intimidade, é inteligente, sagaz e consegue enganar da polícia até importantes traficantes. Diane Lockhart é uma poderosa advogada feminista que lida com mãos de ferro sua empresa de advocacia, tendo consciência do que é ser uma mulher em um ambiente masculino. Se você é um daqueles que nunca acreditou que um seriado chamado ‘A boa esposa’ pudesse ser feminista, reveja seus conceitos parça, e vá agora assistir The Good Wife.

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Orange is The New Black

Piper é uma mulher de classe média que é presa por ter ajudado a ex-namorada a transportar drogas há 15 anos. No presídio ela entra em contato com diversas mulheres, cada uma com sua história. Nós já falamos aqui sobre os motivos de Orange is The New Black ser um seriado feminista, mas sempre vale a pena ressaltar.O seriado é uma metáfora para a sociedade patriarcal em que vivemos, onde todos os personagens masculinos gozam do privilégio da liberdade. No passado das mulheres vamos lidando com questões como aborto, violência doméstica, drogas, entre outros. Temos aqui mulheres de todas as raças, crenças e formatos. E esse é um dos principais trunfos da série. Diferente de The Good Wife ou Orphan Black, aqui temos mulheres gordas, magras, negras, brancas, latinas, asiáticas, lésbicas, héteros, religiosas, atéias e até uma mulher trans. Palmas para a representatividade.

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Orphan Black

O feminismo em Orphan Black também já foi defendido aqui no blog. Com uma trama envolvente e frenética de ficção cientifica, conhecemos a golpista Sarah Manning, que vê uma mulher igual a ela se suicidar na estação de trem. Ela então decide roubar sua identidade e descobre que na verdade é um clone. Agora ela precisa se unir a suas ‘irmãs’ para lutar contra cientistas, militares, fanáticos religiosos e até um serial killer. Toda a trama fala da autonomia das mulheres e o direito de ser dona do próprio corpo, dois assuntos bem feministas. Todas as personagens são complexas, vemos como existem diferentes tipos de mulheres, não apenas a ‘santa’ ou a ‘meretriz’.

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Girls

Há controversas se a série Girls, da HBO, chega a ser feminista. Entre as desventuras de Hanna e suas amigas, que procuram ser mulheres independentes de Nova York, mas sem o glamuor de Sexy and The City, nós vemos que boa parte da trama das personagens é desenvolvida através de sua vida amorosa. Temos Marnie e seu namorado de anos que ela não sabe se ainda quer, Hanna e um relacionamento algumas vezes abusivo com Adam, Jesse tentando não se envolver com seu chefe, Shoshana querendo perder a virgindade… Tudo gira em torno de homens.Mas ao mesmo tempo, temos dramas que não seguem essa linha, o feminismo está nos detalhes. É Hanna, uma protagonista que não faz parte do padrão de beleza da mídia, ficando nua e fazendo sexo sem pudor. É Jesse decidindo fazer um aborto logo nos primeiros episódios da série. É Marnie decidindo seguir seu sonho de se tornar cantora. Girls levanta uma bandeira feminista, mas não da forma convencional que vemos por aí, com personagens fortes e decididas. Ela levanta a bandeira, exatamente pelo oposto, mostrando personagens neuróticas, autodestrutivas e inseguras. Pessoas com defeitos, como todos os seres humanos.

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Unbreakable Kimmy

Kimmy Schmidt é uma mulher de 29 anos que mora há 15 anos dentro de um bunker pensando que o mundo havia acabado, mas é resgatada logo no inicio do seriado. Ela então vai morar em Nova York, trabalhando de babá na casa de uma família rica e dividindo apartamento com Titus, um ator gay e negro que sobrevive de pequenos bicos. Com a personalidade de uma adolescente, Kimmy precisa conhecer um mundo muito diferente e, por isso, acaba não se adequando há algumas regras. Esse é o único seriado que ainda não terminei de assistir (estou na metade de primeira temporada), mas ele brinca com alguns preconceitos em piadas muito inteligentes. As criticas feministas não está na história, mas em piadas bem colocadas, criticando o status quo. Se você não presta atenção, pode até perder. Kimmy vai empoderando mulheres a sua volta e mostrando que todas elas são inquebráveis.

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Bônus: Veronica Mars

Faça uma série com mistério e adolescentes e você ganha meu amor eterno. Não precisa muito mais do que isso para me fazer ficar ansiosa para novos episódios, é até vergonhoso. Foi assim que eu comecei a assistir a série Veronica Mars, mas foi a personagem titulo que encantou. Verônica resolve mistérios, prende bandidos, invade computadores e tem uma hacker como melhor amiga. Logo no primeiro episódio descobrimos que Verônica perdeu a virgindade através de um estupro. Esse é apenas um dos vários assuntos feministas que são abordados por essa garota que não tem papas na língua. Verônica até pode ter alguns homens querendo defendê-la, mas é ela que salva os marmanjos no dia a dia. Ela se opõe ao sistema. A série tem alguns problemas com personagens estereotipados (latinos, negros e até feministas), mas no final das contas sabemos que a personagem está do nosso lado na luta contra o patriarcado.

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Vocês conhecem outras séries que podem ser consideradas feministas? Me apresentem! Deixem suas sugestões no comentários. Como boa viciada em série, eu definitivamente vou assistir.

Orphan Black e o empoderamento das mulheres

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Qualquer história que tenha personagens femininas com tramas bem desenvolvidas ganha meu coração imediatamente e foi isso que fez eu me apaixonar por Orphan Black, uma série  canadense de ficção científica da BBC Americana. A história começa quando Sarah Manning, uma golpista, vê uma mulher igual a ela se suicidar. Precisando de dinheiro, ela decide roubar a vida de Elizabeth Childs, uma detetive de polícia. Ao poucos, Sarah descobre que ela e a falecida compartilham o mesmo material genético: são clones. Assim como elas, muitas outras existem e estão sendo assassinadas por um misterioso serial killer.

Na série, a atriz Tatiana Maslany interpreta pelo menos oito personagens diferente, mostrando uma atuação e versatilidade incrível. Mas não é apenas por causa dela que a série ganhou meu coração, mas por colocar personagens femininas como heroínas (e vilãs) em uma trama envolvente e frenética, abordando um tema bem feminista: a autonomia das mulheres.

orphan-black-sarah-season-3-character-poster-570x855As duas primeiras temporadas seguem um ritmo intenso, com poucos momentos para ‘respirar’. São perseguições, revelações, reviravoltas e surpresas a cada cena. As mulheres de ‘Orphan Black’ não precisam de homens para resolver seus problemas, muito pelo contrário. O principal objetivo de Sarah não é viver em paz com seu ‘príncipe encantado’, mas salvar sua filha.

A série é feminista e com louvor. Toda a trama de ficção científica e clonagem são metáforas sobre o empoderamento da mulher e o direito de ser dona do próprio corpo. Sarah dizendo ‘É minha biologia, meu corpo, eu tenho que decidir isso’ é um grito feminista.

As clones precisam lutar contra cientistas, que querem controlar suas vidas, ou religiosos fervorosos, que querem ‘salvar suas almas’ e usá-las para procriação. A procriação, por sinal, é um assunto recorrente na série. É tanto que as únicas clones que podem ter filhos são perseguidas e usadas como experimentos, todos desejam controlá-las. E são elas, ironicamente, as mais incontroláveis. Vemos também como cada clone faz concessões de sua autonomia para ter liberdade, segurança ou privacidade. Basicamente, a vida de toda mulher nessa nossa sociedade patriarcal.

É bonito também ver o conceito de sororidade colocado em prática na série, onde todas as clones se chamam de irmãs e tentam ajudar umas as outras, sejam em problemas grandes envolvendo os vilões da série, ou em coisas pequenas, como dar uma festa no subúrbio. As personagens com frequência precisam se colocar no lugar da outra e, assim, entender as diferentes realidades em que vivem. É como Sarah, que detesta o modo de vida de Alison, mas que ao se colocar em seu lugar defende a irmã.

orphan-black-alison-season-3-character-poster-570x855As mulheres de Orphan Black são empoderadas e lutam, todos os dias, por sua autonomia. Pelo direito de suas escolhas, sejam elas boas ou ruins. E não aceitam a desculpa ‘é para o seu bem’ para que as outras pessoas decidam suas vidas. Quando uma personagem decide ‘vender’ uma das irmãs de Sarah para protege-la, ela categoricamente responde “Não é sua escolha”. Essa resposta, por sinal, é dada várias vezes na série, em diversas situações. “Não é sua escolha” é uma ótima resposta para se dar as pessoas que são contra a legalização do aborto, por exemplo.

A série também questiona os diferentes caminhos que uma pessoa pode seguir, dependendo de suas escolhas e oportunidades na vida. Sarah é um golpista que foge de um relacionamento abusivo, Cosima é uma inteligente cientista bissexual, Helena é uma perturbada sociopata, Alison é uma mãe de subúrbio passivo agressiva que faz o que é necessário para proteger sua família, Rachel é uma dominadora empresária que pretende subjugar as outras clones, entre tantas outras personagens que aparecem esporadicamente durante a trama. O eterno dilema de biologia x meio é debatido de uma forma não didática durante a série.

Recorrentemente ouvimos alguém falar para Sara “Essa poderia ter sido você, se tivesse terminado o colegial e ido para a faculdade”. Mas, mesmo assim, todas têm o seu valor, seja a força, a inteligência, a liderança, a sagacidade, o bom coração, etc.

Todas as personagens são complexas, cheias de camadas exploradas durante a série. Nenhuma personagem é completamente boa ou ruim. Talvez por isso seja tão fácil se identificar com elas, até mesmo as vilãs. A série já vai para a quarta temporada e estou morrendo de ansiosidade. No Netflix é possível assistir as primeiras duas temporadas e no Popcorn Time você assiste a terceira. Para quem ainda não assistiu a série, vejam o trailer e se apaixonem.

Para ler mais sobre o assunto:

Os homens de Orphan Black Orphan Black: é possível fazer diferente As muitas faces de Orphan Black Orphan Black, uma série empoderadora

Malala: A garota que nunca se calou

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“Uma criança, um professor, uma caneta e um livro podem mudar o mundo”. Essa famosa frase foi proferida por Malal Yousafzai em seu discurso a Organização das Nações Unidas no dia 12 de julho de 2013, no seu aniversário de 16 anos. Nove meses antes ela lutava entre a vida e a morte, após sofrer um atentado de extremistas do Talibã. Nesta época Malala já era famosa por sua luta pela educação de meninas no Paquistão. O tiro que pretendia silenciar para sempre sua voz expendiu sua batalha e a deixou famosa em todo o mundo

No último domingo (12), Malala comemorou seu aniversário de 18 anos inaugurando uma escola no Líbano para garotas sírias refugiadas. Muitos a conhecem por ser a mais nova ganhadora do Prêmio Nobel da Paz, em 2014, mas poucos sabem os detalhes de sua trajetória antes de ter atingida por um tiro. No livro “Eu Sou Malala”, publicado pela Companhia das Letras, vamos descobrindo como a garota cresceu, sua criação e educação e como sua principal diferença com as colegas de escola era sua liberdade para falar.

O nome da jovem é emblemático, inspirado na heroína do Afeganistão Malalai de Maiwand, que inspirou o exército a derrotar os britânicos na segunda guerra anglo-afegã de 1880. Malalai juntou-se a outras mulheres e foi para o campo de batalha, para cuidar de feridos. Lá viu que os afegãos estavam perdendo e que o porta bandeira caiu, ela então levantou seu véu branco e avançou no campo. Os britânicos mataram Malalai, mas os afegãos venceram os colonizadores. Seu avô tinha medo que o nome fosse lhe trazer má sorte e uma vida curta. A história quase se repetiu na vida da jovem.

No livro, também conhecemos seu pai, um homem que acreditava no poder da educação e tinha como sonho construir escolas para meninos e meninas no vale de Swat. Descobrimos também sobre a mãe de Malala, uma mulher muito religiosa e analfabeta, com uma força e compaixão inabalavél, que sempre abria sua porta aos desafortunados e alimentava os alunos mais humildes da escola do marido para que eles pudessem se focar nos estudos.

Malala costuma dizer que sua história não é única, acontece todos os dias com meninas em todo o mundo. Isso fica ainda mais evidênte no livro, ao mesmo tempo que sua bondade e sua perseverança se destacam. Ela não é extraordinária por fazer coisas sensacionais, é uma jovem comum que gosta de ler, estudar e é boa oradora. Como muitas de suas amigas que ela competia pelas melhores notas na escola.

Ela teve a possibilidade e a liberdade de contar a sua história. O pai de Malala é um cara extraordinário, que luta com muita coragem contra o Talibã e firme em seus ideais. Malala é fruto dessa criação. Ele queria educar o vale, mas Deus tinha uma missão muito mais importante: Ele deveria criar Malala. Se não fosse por sua criação e apoio, não poderia ter existido uma Malala.

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Quantas Malalas são silênciadas pela falta de apoio em suas casas? Quantas Malalas deixam de estudar porque seus pais acreditam que o casamento é a única maneira decente de viver? Ou as tiram da escola? Quantas Malalas não podem escolher sua profissão?

Ao final do livro, eu estava em lágimas. A história de Malala sempre me emociona e estou esperando ansiosamente pelo documentário ‘He Named Me Malala’ que será lançado no dia 2 de outubro no exterior e 19 de novembro no Brasil. Fico feliz de existir uma pessoa como ela para inspirar meninas em todo o mundo.

O livro é maravilhoso para entendermos não só a história de Malala, mas do vale de Swat, Paquistão, Talibã e as guerras na região. Algumas vezes a leitura é difícil, porque não estamos acostumados com a história desses lugares. Até os nomes parecem confusos, não fazem parte de nossa realidade. O livro tenta explicar tudo de forma didática, mas eu ainda tenho dificuldade para entender os conflitos no oriente médio.

O mais importante é a mensagem transmitida, que precisamos levantar nossas vozes nos momentos mais difíceis. Quantos de vocês se calariam ao serem ameaçados de morte? Malala teve medo, mas não parou de ir a escola. Não parou de estudar. Não parou de discursar.

Malala nunca se calou, e por isso tentaram calar ela. Devemos nos espelhar na coragem dessa garota e nunca nos calarmos diante das injustiças. O mundo está cheio de causas para se lutar, mas não com armas e balas. Como diz Malala, uma criança, uma caneta, um professor e um livro: Isso pode mudar o mundo.

O terror diário de ser mulher

Em uma pesquisa da Universidade de Dakota do Norte, 86 estudantes americanos responderam perguntas sobre estupro. Cerca de 36% deles admitiram que, se não fossem presos ou pegos, eles estuprariam uma mulher. Um terço dos homens estupraria uma mulher, se não houvessem consequências. Eles não acham o ato impróprio, só não querem ser pegos. Outra pesquisa americana  mostra que 1 a cada 5 mulheres é estuprada em algum momento da sua vida. Significa que se você tem 500 amigos no facebook e 250 forem mulheres, pelo menos 50 delas já foi ou vai ser estuprada. Pense em todas as mulheres que você conhece, qual delas já sofreu isso? Qual ainda vai sofrer?

O estupro é tema da Super Interessante esse mês e eles publicaram aqui 104 histórias de estupros, eu não consegui ler mais que 10. Comecei a chorar e tive que parar a leitura. Os poucos que li já mostram que qualquer um pode ser estuprador: o pai, o padrasto, o avô, o primo, o amigo, o colega da faculdade, um desconhecido. Qualquer uma pode ser a vítima, sua irmã, sua filha, sua amiga, sua colega da faculdade, sua mãe. Então por que o estupro é um problema só das mulheres? Por que os homens também não combatem o estupro?

Imagine a seguinte cena: Você decide ir na piscina pública de um parque aquático. O lugar está lotado, você é mulher e está de biquíni. Então os homens do local, entre 70 a 80, decidem que vão arrancar o biquíni das mulheres que estiverem na piscina e dar dedadas em suas partes íntimas.

Você é afogada, segurada por três homens, um levanta a parte de cima do seu biquíni até o pescoço e a parte de baixo até seu joelho e todos começam a te tocar. Você consegue se soltar e com a ajuda das outras mulheres sair da piscina desesperada. São cerca de 20 mulheres que foram atacadas e todas estão chocadas e assustadas.

No dia seguinte, quando o assunto chega aos jornais, você descobre que as pessoas te culpam por ter ido nadar de biquíni. O administrador do espaço diz que não teve abusos, a qualidade dos biquínis que eram ruins e por isso rasgavam. Enquanto isso os homens se gabam no Facebook de quantas mulheres deram dedadas naquele dia.

Acha isso um absurdo? Essa é uma história real, aconteceu em Hanoi, no Vietnã. Ser mulher é viver neste mundo.

Ao ler essa notícia me veio diversos pensamentos, o primeiro foi “Isso é um absurdo”, seguido de “como pode isso acontecer?”. Compartilhei a notícia no facebook e várias outras mulheres ficaram ultrajadas… Mas após duas horas percebi que nenhum comentou o assunto, eles não pareciam se importar ou ficar chocados. Não era relevante para eles.

Então eu pensei nos homens que estavam naquela piscina. Não é possível que todos os estupradores do Vietnã tenham decidido tomar banho de piscina no mesmo dia. Todos eles viraram estupradores naquele momento, quando se aproveitaram de uma situação para abusar de mulheres. Eles possivelmente têm filhos, filhas, esposas, irmãs e mães. Ainda assim, eles acharam que era um comportamento aceitável e até engraçado dar ‘dedadas’ em mulheres.

Mas você vai e pensa, isso só acontece na Ásia, onde o machismo é maior. Nunca iria acontecer no Brasil. Mentira, isso acontece sempre no Brasil, é só ir ao carnaval ou qualquer show.

Você sabe porque mulheres sempre andam segurando a mão uma da outra em lugares muito lotados e com pessoas bêbadas? Não é porque elas têm medo de se perder. Ser mulher e ir ao carnaval (ou show) é estar preparada para uma simples situação: Você está andando, quando um grupo de homem te prende em um roda e diz que você só vai sair de lá se beijar um deles (ou todos). São cinco, seis, oito homens. Você é apenas uma mulher. O que irá acontecer se você se recusar? Você segura a mão da sua amiga porque ela pode te ajudar a fugir daquela situação, te puxar e tirar da roda.

Eu já passei por isso mais de um vez. Na primeira vez tinha 17 anos e estava com uma amiga de 15. Era um festival de verão no nordeste e ficamos presas naquela roda. Comecei a gritar e empurrar o homem que estava na minha frente, até que ele nos deixou passar. Minha amiga estava apavorada. Eu ainda consegui ouvir os homens rindo e um deles falar “Que histérica, não sabe nem brincar”.

Para os homens naquela piscina, dar dedadas era uma brincadeira. Para as mulheres, é um terror. Assim como é assustador ser presa em uma roda de rapazes. É voltar para casa se sentindo imunda, é chorar deitada, é ter medo de andar na rua. É ter a certeza que o nosso corpo não é respeitado e se um homem quiser tocar nele, mesmo contra a nossa vontade, ele irá tocar.

Os estupradores não são pessoas doentes ou sociopatas, são pessoas comuns, que não respeitam o corpo das mulheres e sua autonomia. Podem ser qualquer pessoa, até o seu melhor amigo. O estupro existe porque há uma cultura machista que permite. Quando você faz piadas sobre mulheres, quando você acha engraçada a propaganda do ‘Verão’, quando você culpa a vítima porque bebeu, ou não gritou ou usou determinada roupa… Você é cúmplice desse crime. Você permite que as mulheres sejam estupradas, mesmo que não cometa o ato. Você aceita olhar para o outro lado.

Está na dúvida se algo pode ser estupro ou não, esse vídeo explica o que significa consentimento. Quando existe consentimento, não é estupro. Quando não existe, é estupro.