Cada pedaço em um lugar

Quando decidi sair do Acre para morar em outro estado, sabia que essa seria uma experiência desafiadora e que iria modificar minha vida, eu só não fazia ideia de quanto. Depois de dois anos morando em Belo Horizonte, aprendi coisa novas em relação ao mundo a minha volta, porém, o mais importante, foi o quanto aprendi sobre mim mesma.

Descobri que a saudade é uma coisa intensa, mas o ser humano aprende a viver sem os seus pilares. Os amigos fazem falta nos momentos mais corriqueiros: uma festa legal, um filme que você assiste, uma programação interessante que sua melhor amiga iria adorar. Mas as tecnologias ajudam e você sobrevive. A família faz falta nos dias difíceis, nos almoços de domingo e em todas as datas comemorativas. Dói demais. Dói mais do que você achou que poderia suportar. A tecnologia não é o suficiente, as fotos não são o suficiente, nada é. Mas você sobrevive.

Você descobre uma força que não pensou que estava lá. Seca suas lágrimas sozinha e não conta para ninguém (qual o ponto?). Conhece o lado bonito e triste da solidão. Descobre como é jantar sozinha em um restaurante, ir ao cinema com você mesma, como é legal não ter companhia para ir comprar roupas e quantas coisas incríveis uma festa pode proporcionar quando você decide ir sem ninguém. Você também percebe o quanto é chato não ter com quem ir naquele show, como dá trabalho sair praquela festa sem amigos ou como é insuportável estar em um lugar onde todos se conhecem e você não tem ninguém. Também descobre seu estilo, sua essência e sua identidade de uma forma que você nunca tinha parado antes para pensar. Ah, então essa sou eu?

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Mas você conhece pessoas e começa a criar memórias com elas. Como assoprar suas velas de aniversário em um pote de brigadeiro, cantar karaokê com seu melhor amigo no sábado a noite ou como você adorava o intervalo das aulas para bater papo com seus amigos. Quando vê, está repleta de pequenas lembranças nos lugares que visita. Aquele ambiente começa a se tornar corriqueiro, apesar de você ainda parar no meio da avenida, olhar para os prédios em volta e se perguntar se realmente está ali. Naquele lugar. Tem horas que você nem mesmo acredita, mesmo que já tenha passado por ali umas trezentas vezes nos últimos meses.

No final, depois de meses andando naquelas ruas, olhando aqueles prédios, pegando aqueles ônibus, atravessando aquelas avenidas, admirando aquela vista… Você entende que seu coração não pertence mais a um só lugar. Você não é mais aquela garota do meio da amazônia, mas também não é a menina da cidade grande, tampouco a filha dos seus pais ou a desconhecida no meio da rua. Você pertence aquele lugar novo, mas também tem as raízes fincadas na sua terra natal.

O seu coração foi partido em pedaços e cada um deles pertence a um lugar diferente. Talvez morar em outro estado seja isso, ter a certeza que você nunca estará plenamente em casa, mas que terá um pedacinho de lar em cada canto que se aconchegar. E que você sempre, sempre estará morrendo de saudades do lugar que não está. É como diz Manoel de Barros: “Do lugar onde estou, já fui embora”.

Sobre o último beijo que nunca lhe dei

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Na última vez que a vi, ela segurava as lágrimas enquanto abraçava a si mesma com força, como se estivesse arrumando uma maneira de segurar a própria alma. Observei ela segurar o choro e fugir do meu olhar, não sei se foi por medo de desabar na minha frente ou com vergonha por estar quebrando meu coração. Eu queira beijá-la uma última vez, mas não queria acreditar que nunca mais a teria. Então não a beijei. Em vez disso abri a porta quando ela pediu, caminhei com ela pelo corredor do condomínio, observei seu carro ir embora do estacionamento e chorei.

Como agora sei que foi minha última oportunidade, fico tentando lembrar de todas as nossas últimas vezes. A última vez que a beijei, que fizemos sexo ou que ouvi o som de sua risada. Não consigo lembrar de nenhuma, como se minha cabeça tivesse apagado cada uma dessas lembranças. Fico em dúvida se é algum tipo de mecanismo de defesa, como acontece com crianças traumatizadas, ou se em algum momento eu usei aquela máquina para apagar memórias de “Brilho Eterno de uma Mente sem Lembranças”.

Teria sido mais fácil esquecê-la se tivesse usado essa maldita máquina, mas não é assim que as coisas funcionam. Eu nem sei se quero deixar essas lembranças. Por muito tempo esse foi meu maior desejo, apagar todos os sentimentos que me aprisionavam naquela areia movediça do fim de relacionamento. A ausência dela era mais insuportável que sua presença inconstante. Eu ansiava por todas aquelas mudanças de humor que não entendia, os silêncios desconhecidos e as barreiras emocionais que por meses me irritaram. Acho quem de alguma forma, ainda espero que ela volte para usar a escova de dente que joguei no lixo, deitar na minha cama e se embrulhar em mim, mesmo estando mais quente que eu usando aquele moletom velho.

Uma parte de mim sempre vai esperar por ela, enquanto a outra vai ficar feliz de tudo ter acabado. A verdade é que eu não sirvo para relacionamentos, por mais que tente me adequar. Sou insegura demais para esse tipo de coisa. Não precisar pensar se estou fazendo algo de errado é extremamente libertador.

Com ela, eu sempre pensei que estava fazendo algo de errado.

Não porque sentisse que era errado estarmos juntas, pelo contrário, era bom até quando era ruim. Mas era como se eu não fosse boa o suficiente para ninguém. Eu sabia que quando ela me conhecesse de verdade, todos os meus medos e inseguranças, sairia correndo.

Bom, foi exatamente isso que aconteceu. Só que ela não precisou conhecer metade de mim para cair fora.

Até hoje não consigo saber qual foi o momento que ela deixou de me amar. Se foi antes ou depois de terminarmos. Até hoje tento descobrir qual foi o momento, qual foi a briga, qual foi o instante em que as coisas começaram a desandar. Quando vi, já estávamos rumo ao final e foi mais rápido que um estalar de dedos.

Eu não queria que aquela fosse nossa última noite. Então acreditei que não era e a deixei ir embora. Se eu pudesse mudar alguma coisa, qualquer coisas, em toda a nossa histórias, eu teria lhe dado um último beijo. Eu pediria para que você parasse de segurar as próprias lágrimas, porque foi insuportável ver você sendo forte enquanto eu estava em prantos. Porque é insuportável, até hoje, não ter a lembrança do seu último beijo. Eu realmente não me lembro, e eu costumo me lembrar de tudo sobre nós.

Amor Amargo e Relacionamentos Abusivos

Ainda na vibe dos vídeos para o youtube, também resolvi resenhar o livro ‘Amor Amargo’ da Jennifer Brown, que li na semana passado. O livro é muito bom e, aproveitando o tema da leitura, falei um pouco sobre relacionamentos abusivos e as reflexões que tive enquanto acompanhava a história.

Vlog: TAG Culinária

Olá,

Como o tempo foi ficando menor e os afazeres maiores, não tá dando tempo de escrever no blog (e na verdade, falta animo também). Mas em compensação, tô voltando com os vídeos para o youtube. Não sei exatamente quanto tempo vai durar a brincadeira, mas estou me divertindo por lá. Aqui a TAG culinária que gravei há duas semanas, na madrugada de um sábado à noite.

 

Oscar 2016: The Big Short

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Expectativa é uma coisa engraçada, quanto menos você tem, melhor. Esse é o grande trunfo de ‘The Big Short’. Como a maioria das pessoas vai ao cinema imaginando que irá encontrar uma versão sem o Scorsese de ‘O Lobo de Wall Street’, acaba descobrindo um filme que merece o destaque que ganhou na premiação do Oscar. Compara-lo com ‘O Lobo’ é inútil, apesar de se passarem em um mesmo ambiente e se utilizarem do humor para contar a história, não há similaridades entre eles. Ainda bem.

Adaptado do livro de Michael Lewis ‘The Big Short: Inside the Doomsday Machine’, o filme conta as diferentes histórias de investidores e especuladores financeiros que previram o estouro da bolha imobiliária e resolveram apostar contra ela. Para quem não sabe, a queda dos bancos em Wall Street que é mostrada na tela é responsável, em partes, pela atual crise econômica no Brasil. Estamos recebendo as últimas ondas deste tsunami econômico.

No filme, Michael Burry (Christian Bale) é o dono de uma empresa de médio porte, que decide investir muito dinheiro do fundo que coordena ao apostar que o sistema imobiliário nos Estados Unidos irá quebrar em breve. Tal decisão gera complicações junto aos investidores, quem apostaria contra uma economia em ascensão? Ao saber disso o corretor Jared Vennett (Ryan Gosling, irreconhecível e incrível no papel) percebe a oportunidade e passa a oferecê-la a seus clientes. Um deles é Mark Baum (Steve Carell), o cético dono de uma corretora que enfrenta problemas pessoais desde que seu irmão se suicidou. Ao mesmo tempo, dois iniciantes na Bolsa de Valores percebem que podem ganhar muito dinheiro ao apostar na crise imobiliária e, para tanto, pedem ajuda de Ben Rickert (Brad Pitt), um investidor que vive recluso.

brad2bpittO filme é acido, rápido e engraçado, mostrando o absurdo que existia em Wall Street para manter um sistema capitalista e o dinheiro rodando. As atuações de Christian Bale, Ryan Gosling, Steve Carell, John Magaro, Finn Wittrock e Brad Pitt estão incríveis, mas todo o elenco está fenomenal. A escolha de utilizar uma fotografia de documentário com imagens da cultura pop foi uma jogada de mestre do diretor de comédias Adam McKay para impedir que o filme se tornasse monótono.

São tantas informações que é difícil acompanhar. Talvez esse seja um dos poucos defeitos do longa. Com uma grande quantidade de protagonistas e um número de informações muito grande para pouco tempo, é normal se sentir perdido. Mas a forma como o filme escolheu para ‘ensinar’ alguns dos temos incompreensíveis para leigos em economia, realmente ajuda o telespectador a se situar ao mesmo tempo que entretém. Um exemplo é a cena que contém a atriz e cantora Selena Gomes, divertida e didática na medida certa. A quebra da quarta parede (quando um personagem fala com o telespectador) também é um elemento muito bem utilizado. A montagem é sensacional e, junto com a narração, lembra muito o brasileiro ‘A Ilha das Flores’.

Temos também uma carga dramática que não parece forçada, representa perfeitamente na cena em que o personagem de Brad Pitt briga com dois iniciantes na Bolsa de Valores por estarem comemorando a eminente queda dos bancos. Eles iriam ganhar milhões com aquilo, mas na verdade, a vitória deles significava que muitas pessoas iriam perder seus empregos, suas casas e a economia mundial entraria em colapso. O telespectador também encontra-se no mesmo dilema: torcemos para os ‘mocinhos’, mas na verdade, torcer para eles é torcer contra nós. Da mesma forma que torce para que eles estejam errados é admitir que nós preferimos que a corrupção dos bancos continue, desde que isso não afete nossas vidas.

Em meio a um Oscar sem muitas inovações, ‘The Big Short’ é a prova de que é possível fazer bons filmes em Hollywood.

Oscar 2016: Spotlight

rachel-mcadams-mark-ruffalo-brian-dg-arcy-michael-keaton-and-john-slattery-in-spotlight-cred-kerry-hayes-open-road-films‘Spotlight – Segredos Revelados’ pode ser resumido em duas palavras: Mark Ruffalo. Maravilhoso do começo ao fim, nós até esquecemos que ele não é o personagem principal da trama. Todo o resto se apaga quando o ator não está em tela e podemos ver alguns defeitos da obra que se desenrola. O filme te deixa inquietado por causa da história que é contada, mas a fórmula usada para isso não surpreende. A impressão é que o filme ficou preso no final dos anos 90 ou que estamos em alguma série do Universal Channel, só que com jornalistas em vez de advogados ou detetives. Tudo bem, porque eu adoro Law & Order.

Baseado em fatos, Spotlight acompanha a denúncia do jornal Boston Globo sobre o esquema de conivência da Igreja Católica e do sistema judiciário da cidade para acobertar abusos de menores praticados por sacerdotes. Por trás disso, temos uma homenagem ao jornalismo antes das redes sociais e uma crítica a superficialidade das notícias. Algo que fica evidente em duas cenas do filme, em que a equipe do Spotlight percebe que os assuntos investigados já haviam aparecido algumas vezes no Boston Globo na forma de pequenas matérias. É o cotidiano do jornalismo deixando passar histórias importantes e transformando-as em notinhas de rodapé.

mark_ruffaloOs personagens de Spotlight ainda não sabiam, mas as coisas iam ficar cada vez piores, com prazos cada vez mais curtos, informações repetitivas e a superficialidade das redes sociais indo parar nas redações. Como jornalista, é normal desejar fazer parte desta equipe de repórteres investigativos com os maiores prazos já vistos para desenvolver uma matéria. Mas talvez isso ensine os editores do mundo que um prêmio Pulitzer não se faz com uma cobertura de dois dias.

As interpretações Michael Keaton, Rachel McAdams, Liev Schreiber, Stanley Tucci eBilly Crudup também sustentam o filme de forma primorosa, a equipe está afiada e trabalha bem junta. Mas é a performance brilhante de Mark Ruffalo que se destaca. Não sei se o ator é o favorito do Oscar, mas não me surpreenderia se ele acabar ganhando a estatueta de Melhor Ator Coadjuvante, desbancando até o excelente trabalho feito por Tom Hardy em ‘O Regresso’.

A direção de Tom McCarthy, no entanto, pode ser vista apenas como competente. O diretor tinha uma história fácil de contar e nos deixamos levar pela obra, ansioso por mais respostas. Mas a verdade é que Spotlight serve muito mais para as faculdades de jornalismo do que para as aulas de cinema. Ainda assim, merece ser visto pelo tema que aborda: a pedofilia dentro da igreja católica, um assunto que ainda carece de debate. Se a intenção era dar luz a esse assunto, então Spotlight conseguiu cumprir a sua missão, e é isso que importa.

Oscar 2016: Brooklyn

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Alguém poderia me explicar por que Brooklyn está concorrendo como Melhor Filme enquanto ‘Carol’ e ‘A Garota Dinamarquesa’ não estão na disputa? Eu realmente não entendo. Não me levem a mal, não achei Brooklyn um filme ruim, pelo contrário. A história de Ellis e sua jornada para decidir onde é seu verdadeiro lar, a Irlanda ou a América, é realmente encantadora. Mas não chega aos pés desses dois filmes que ficaram fora da disputa.

Dirigido por John Crowley e escrito por Nick Hornby, baseado no livro homônimo de Colm Tóibín, o filme conta como grande destaque a interpretação de Saoirse Ronan, que concorre ao prêmio de Melhor Atriz. A jovem faz um competente trabalho mostrando o desabrochar natural da personagem durante o longa, indo de uma tímida garota sem perspectiva na Irlanda até uma jovem metropolitana com um mundo de possibilidades. Nós conseguimos entender as dúvidas da personagem e os motivos que a fazem ficar entre dois amores.

Saoirse Ronan in BrooklynApesar da metáfora se fazer pelo romance, não é entre dois homens que a jovem está escolhendo, mas entre duas vidas, duas casas e dois países. Ficar em sua cidade natal onde a vida é mais fácil e adaptável ou aguentar a saudade e insegurança de viver longe de sua zona de conforto? Não existe exatamente uma escolha certa a ser feita, apenas uma escolha. Cada uma delas terá seus bônus e seus ônus.

No entanto, o desaflorar de Ellis é bonito de se ver. Acontece de forma tão gradual que só conseguimos perceber as mudanças quando ela retorna para sua cidade natal e lá começa a se destacar, seja pelas roupas ou pela confiança adquirida do outro lado do oceano. Logo se vê cheia de possibilidades em sua pequena cidade, mas será que seu espirito está grande demais para aquele lugar? Ainda assim, é impossível não ficar dividido – assim como a personagem – sobre qual destino será escolhido.

Brooklyn é um bom filme e merece a ida ao cinema, mas não leva consigo a carga emotiva e ‘A Garota Dinamarquesa’ ou a qualidade cinematográfica de ”Carol’. A fotografia é fofa e delicada, com suas cores bem estabelecidas… Mas não é sensacional, a trilha sonora não tem nada de extraordinário, apesar de apresentar um momento emocionante em que um senhor canta uma música irlandesa durante o Natal. O roteiro, apesar de bem desenvolvido, evolui naturalmente e sem muitas surpresas. No final das contas, o filme cumpre o seu papel, mas não impressiona. Não passa de uma homenagem aos imigrantes irlandeses. Nada além disso.