Moi non plus

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Eu queria escrever sobre você, mas não existe mais você.

Não existe mais o quarto escuro, as visitas no meio da noite, o moletom quentinho, o arraial com tucupi, a noite do oscar, você contando minhas pintinhas, os atrasos constantes, as fugas, os medos, as inseguranças, os sushis, as conversas no carro, as idas ao karaoke, você cuidando da minha bebedeira de tequila, os beijos escondidos, as mensagens no whatsapp, o filme da Anne Frank, você me aquecendo no frio, a camisa amarela, os encontros no corredor, as conversas intermináveis, a carta que eu te dei, a surpresa que você me fez.

Não existe mais você.

A festa no Peru, o seu olhar atrás da bateria, você sentando o meu lado, o sotaque no meu ouvido, vamos alí rapidinho, o beijo no frio, como aqui é frio, você quer ir para o meu apartamento? Você é doida sabia? A conversa sobre os exs, você broxando na primeira vez, o calor no meio da noite, dormir de conchinha.

Não existe mais você.

A briga no corredor da UFAC, você chegando bêbada no meio da noite, as traições, as mentiras, os beijos de bom dia, as idas para Porto Velho, os encontros escondidos, as conversas no telefone, o dia no cinema, os e-mails de amor, as promessas que nunca aconteceram, as raivas, as mágoas, os desrespeitos, as noites no hospital, os dias que você me fez chorar, a crise de gastrite.

Não existe mais você.

As noites que dormi na sua casa, as brigas no seu quarto, as tardes conversando no corredor da UFAC, os poemas que nunca te enviei, a forma como você me beijava o rosto, as surpresas que você fazia, a sua inconstância, você segurando minha mão, o ciúme que você não admitia, as fofocas que não eram verdadeiras, as coisas que você me escondia.

Não existe mais você.

A festa a fantasia, os telefones trocados, nós duas em uma cama de solteiro, o filme que nunca terminamos de ver, o encontro com os amigos, as primeiras impressões, o medo, a fuga, o encontro por acaso, o beijo por vingança, a forma como te tratei, desculpa.

Não existe mais você.

O beijo com sabor de açaí, o dia na piscina, as horas esperando, os desabafos, os telefones que vocês não atendeu, as conversas sem beijos, o fim que nunca teve, a tarde na beira do rio, as lágrimas no restaurante, a festa junina, o livro que você me emprestou, a expoacre, o beijo roubado, os e-mails trocados, o começo de tudo. Tudo mesmo.

Não existe mais você.

Só existe eu.

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Tem dias que são assim

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Existem dias que a gente se sente perdida. Existem anos que a gente também se sente assim. Anos. Meses. Vários dias. Muitos altos e baixos. Bons altos. Péssimos baixos. E sempre a mesma vontade de se encontrar. Aí a gente larga o emprego, faz um mapa astral, muda pro outro lado do país, conhece pessoas novas, vai jantar sozinha em uma pizzaria, vai ao cinema sozinha, vai a uma penca de festas e shows sozinha. Encontra alguns poucos amigos que te fazem sentir em casa. Tenta. Falha. Tenta de novo. Falha novamente. Procura novos sonhos, que mudam pra outros, que viram projetos, que não dão certo. Falha de novo. Chora porque não aguenta mais falhar e errar e não saber exatamente o que tá fazendo da vida. Aí fica doente, mas não consegue a cirurgia no SUS, beija umas bocas, se despede de bons amigos, quebra um celular, ganha um pouco de dinheiro como atendente de lanchonete duas vezes por semana, viaja com quase nenhum dinheiro, vai na praia, se sente feliz, abraça a amiga, vai no karaoke, faz um curso, compra um novo celular, tenta de novo, falha de novo, vai mal em uma entrevista de emprego, quebra o pé, volta para casa e tenta se reencontrar, só pra descobrir que o que tá procurando não tá aqui. Ou tá, mas você que ainda não sabe direito o que tá procurando. Deus, eu só queria saber o que eu quero. Aí a gente pensa no passado, na menina que tirava foto de flor, brincava com o cachorro, passava horas escrevendo fanfics, fazia jornal de mentira e escrevia livros sobre samurais, sacerdotisas suicidas, vampiros e bruxas. Descobre que quer contar histórias, mas que o mundo não está interessado em ouvir. Ou talvez seja você, que não sabe contar boas histórias. Aí chora mais um pouco, porque continua sem saber o que quer fazer da vida. Pensa em montar um empresa, mas desiste. Pensa em ficar, mas quer ir. Pensa em fazer um roteiro, mas não dá certo. Consegue um freela, mas o computador quebra. Vê os amigos, fica entediado em festas ruins, sente saudade da época que estava perdido em outro lugar, tenta criar, acha que tudo o que escreve é uma merda, brinca com o irmão mais novo, se emociona em casamentos, se sente perdida mais uma vez, chora de novo, faz projetos, se estressa com projetos, trabalha nos projetos, se sente frustrada com o projeto, chora mais um pouco, sente saudade, sente vontade de viajar, olha pra conta no banco vazia e sente tristeza, olha pras pessoas em volta cheias de certeza e fotos bonitas no instagram, não tem foto pra colocar no instagram, lê alguns livros, pensa em novos projetos, procura ajuda, desiste de planos, sente medo, desiste de novo, de que adianta tentar isso se eu vou falhar? Fica olhando passagens, fica com preguiça, trabalha, não ganha dinheiro, não tem carreira, não vê perspectivas, fica triste de novo, passa o dia inteiro deitada na cama chorando, levanta, acorda cedo e passa o dia trabalhando, vai em reunião, escreve textos, trabalha mais um pouco, come brigadeiro e pensa: o que eu tô fazendo com a minha vida? Existem dias que a gente se sente pedida, às vezes, dura anos. Às vezes uma vida inteira.