Jessica Jones e as super-heroínas de todos os dias

tv_jessica_ritter1_index1Já aviso logo que tem spoiler, não vem ninguém reclamar depois

Eu não sou muito fã de séries de super heróis, então assim que foi anunciada a série de Jessica Jones, apenas ignorei. Não assisti Demolidor, The Flash ou Arrow. Só que após a última estreia da Netflix, começaram a surgir artigos falando como Jessica Jones abordava os relacionamentos abusivos. Foi a partir daí que comecei a criar interesse pela nossa querida investigadora.

É essa metáfora que salva a série e constrói um clima muito mais interessante para a adaptação. Alguns plots secundários são tão desinteressantes que vão sendo cada vez mais esquecidos, como toda a história de Simpson. A série tem alguns problemas de desenvolvimento ao decorrer dos 13 episódios, chegando a ficar cansativa em alguns momentos, mas sempre recupera o fôlego.

Jessica limita usar seus poderes para destruir cadeados e abrir portas, eles não são importantes. O que eu achei fantástico, a série não precisa de cenas dela voando ou efeitos especiais para ser boa. Jessica parece uma versão mais sombria de Verônica Mars, que entre investigações e comentários sarcásticos, faz sexual casual, se culpa pelos erros que cometeu e vira a noite alimentando seu alcoolismo. Em meio a isso, precisa se reerguer de um relacionamento abusivo.

david-tennant-jessica-jones2O vilão, Kilgrave, é mais aterrorizante por seu caracter do que pelo seu poder de controlar mente. E o pior: você vai reconhecer muitos Kilgraves na vida real. Ele não é um personagem caricato, são diversas camadas que compõem o vilão, deixando-o cada vez mais real. Em algum momentos você sente pena dele, acredita que ele realmente ama Jessica, que tudo seria melhor se ela aceitasse ter um relacionamento com ele. Até que você lembra que ele controlava e torturava as pessoas a sua volta, além de estuprar todas as mulheres com quem se envolveu. Como ela mesma explica para o vilão, forçar sexo ainda é estupro, mesmo que você pague um jantar e leve a pessoa em um hotel cinco estrelas.

Kilgrave encanta e enoja. Ele nem precisaria dos seus poderes para manipular pessoas. Se vê por uma ótica distorcida em que todas as sua ações são coerentes e os outros estão distorcendo tudo de uma forma pior. Ele acredita que forçar sexo não é o mesmo que estupro, que forçar alguém a amá-lo é o mesmo que ser amado. Ele não ama Jessica, ele apenas não suporta a ideia de não poder controla-lá. No final das contas, Jessica e Kilgrave não precisariam ter poderes para contar uma história real, cruel e avassaladora.

Além da história sobre relacionamentos abusivos, o seriado ensina como fazer personagens femininas no entretenimento. As super-heroínas nunca me representaram nas telas, até aquelas que eu adorava nos desenhos, como a Vampira de X-Man, me decepcionavam em qualquer adaptação. Elas são sempre estereotipada, bidimensionais e desinteressantes porque apresentam um perfil limitado do que deveria ser uma mulher, seja com super poderes ou não. É a mocinha indefesa, a vilã sedutora ou a heroína legal, mas não tão boa quanto o herói homem. Mas não Jessica Jones.

A série ganha pontos por apresentar uma elenco repleto de mulheres diferentes do que vemos em produções televisivas, principalmente de super-heróis. Trish não permite ser rotulada como garota em defesa que precisa ser salva, Hope não aceita ser a vítima de Kilgrave que será salva por Jessica, as três personagens lésbicas não se limitam a sua sexualidade e apresentam uma diversidade rara na representação da comunidade. Todas as mulheres são reais.

Leia mais sobre o tema aqui:

Abusos, Jessica Jones e Kilgraves da vida real

Esqueça os super-heróis: a Marvel fez uma série sobre abuso

O que podemos aprender com Jessica Jones?

Abuso e manipulação: Jessica Jones é a produção mais brutalmente real da Marvel

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