Valentina, Primeiro Assédio e Jout Jout: Não adianta tentar calar as feministas

Já faz alguns anos que me identifico como feminista. Na época que descobri o que isso significava, não tinha muitos lugares para me apoiar. Se no Brasil o assunto quase não era discutido, imagina no Acre. A internet foi o local onde comecei a estudar, conversar, discutir e pensar sobre o papel da mulher na sociedade.Apesar de amar o tema, nunca tive muita paciência para fazer uma pesquisa profunda sobre as diversas teorias de gênero. Meu aprendizado era muito mais no dia a dia, aprendia mais de blogueiras feministas do que de livros. Acredito que ainda tenho muito o que aprender, mas não tenho uma formação limitada.

Nesses anos de feminista, fui aprendendo a escolher minhas batalhas. Não é mais qualquer post no facebook que me faz ir lá e escrever um textão. Quem não quer aprender, não vai magicamente ouvir a razão e os argumentos. Foquei minhas energias em tentar discutir com quem quer aprender, ensinar quem ainda está iniciando nessa jornada e conversar com aqueles que mantém a mente e o coração aberto para o diálogo. O que vem me trazendo muita felicidade é o aparecimento de jovens feministas, garotas entre 15 e 19 anos que já falam com propriedade sobre o tema. Coisa que eu nem imaginava fazer nessa idade! A internet é um lugar que proporcionou informações para essas garotas, e talvez por isso estão tentando nos calar nesse lugar.

Nas últimas semanas só se ouviu falar em feminismo. O caso de assedio da participante Valentina, no Master Chef Jr, evidenciou que o abuso de crianças do sexo feminino está muito mais associado ao machismo do que a pedofilia. Se crianças fossem abusadas eventualmente, poderíamos culpar a pedofilia, que é uma doença no qual se pode realizar tratamentos (isso já acontece nos EUA, por exemplo). Mas quando milhares de mulheres relatam situações de assédio na infância, através do movimento Primeiro Assédio, feito pelo Think Olga, percebemos que não se trata apenas disso. Além de pedofilia, devemos falar de machismo. Do motivo que faz com que homens acreditem que garotas de 12 anos já podem ser sexualizadas ou por que jornalistas acham certo perguntar para atrizes de ‘O Carrossel’ sobre relacionamentos. 

Eu não lembro do meu primeiro assédio, nem sei como começou. Mas aos 13 anos eu já sabia o que era estupro, já tinha medo disso e quando um homem tentou me levar para um lugar isolado dizendo que meu pai estava me chamando na outra entrada do prédio, sendo que eu sabia que meu pai estava em casa, dei um jeito de sair correndo. Eu sabia que ele queria me estuprar.

Eu lembro de uma amiga contando, aos 12 anos, que um homem havia se masturbado do lado dela no ônibus. Até hoje, aos 26 anos, eu tenho medo de sentar entre a janela do ônibus e homens desconhecidos, achando que alguém pode fazer o mesmo comigo. Da mesma forma tenho medo de andar sozinha na rua após o anoitecer, atravesso a rua quando vejo uma obra ou borracharia, não passo no meio de um grupo de homens na rua, penso duas vezes antes de colocar um short, entre tantas outras limitações diárias que eu constantemente vou me obrigando a ultrapassar.

O abuso está presente todos os dias na minha vida e é por isso o vídeo ‘Vamos Fazer um Escândalo’ da Jout Jout fez tanto sentido para mim. Está na hora de pararmos de ficar caladas. É por isso que a redação do Enem me emocionou. É por isso que não paro de falar sobre isso nas redes sociais. Mas o que acontece quando as mulheres começam a falar? Os machistas tentam nos calar.

Após toda a polêmica envolvendo Valentina e o Primeiro Assédio, finalmente conseguiram derrubar uma das piores páginas do facebook: Orgulho de Ser Hétero. Um lugar que destila discurso de ódio contra mulheres, comunidade LGBT e negros, comandada principalmente por mascus (um grupo de ódio que existe na internet e que faz ameaças de morte para mulheres e defende o estupro corretivo). Quando a página caiu, eles começaram a fazer um movimento para derrubar várias páginas consideradas feministas: “Feminismo Sem Demagogia”, “Moça, você é Machista”, “Cartazes e Tirinhas LGBT” e a página da Jout Jout foram alguns dos alvos derrubados por esse grupo.

O blog da feminista Lola também foi atacado, sendo que fizeram um blog fake e denúncias para a universidade onde ela trabalha, tentando demiti-la por ‘queimar bíblia’ e ‘fazer aborto em estudantes’, coisas que obviamente são mentiras. Há anos ela recebe ameaças de mascus, e-mails com a foto de sua casa, do seu marido e ameaças para sua mãe.

As páginas estão tentado voltar, por enquanto apenas a da Jout Jout conseguiu. Mas essa ‘guerra’ virtual só mostrou como o machismo é perigoso, latente e precisa cada vez mais ser combatido. Os mascus já ameaçaram matar estudantes da UnB (apenas mulheres), mas dizem que são as feministas que querem arruinar o mundo. Desculpa, mas nunca vi nenhuma feminista tentando matar estudantes. O machismo mata pessoas todos os dias, o feminismo salva. Acho que podemos ver que eles não são nada parecido.

Eles estão fazendo essa guerra porque querem continuar abusando de mulheres a partir dos 9 anos. Você realmente concorda com isso? Se não concorda, então o feminismo é necessário. Porque são as feministas que combatem todos os dias esses comportamentos machistas.

Nesse guerra, meu lugar é claro. Eu fico com o feminismo e não adianta tentar nos calar. Nós vamos fazer um escândalo.

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