Sofia Coppola e o aprisionamento da alma feminina

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A primeira vez que vi ‘Encontros e Desencontros’ detestei o filme. Achei chato, entediante e me irritava o fato dos personagens estarem no Japão e não aproveitarem cada minuto, porque aquele era o lugar que sonhava conhecer. Na época eu deveria ter uns 13 ou 14 anos e vi o filme por acaso, não sabia nem o nome.

Anos depois, assisti novamente e fiquei encantada. Achei o filme fantástico, chorei e me identifiquei com o drama dos personagens, principalmente da jovem Charlotte (interpretada pela Scarlett Johansson). Ele se tornou um dos meu preferidos e sempre que revejo encontro novos elementos para me encantar.

Aproveitei a mostra ‘(des)Encontros com Sofia Coppola’ que ocorreu entre 28 de agosto e 2 de setembro no Cine Humberto Mauro, no Palácio das Artes, para rever o filme. Lembrei porque Sofia Coppola é uma das minhas diretoras preferidas. Ela pode não ser um grande gênio, mas em uma industria tão misógina, é bom ter alguém que fale sobre a alma feminina de forma complexa e ao mesmo tempo singela.

Sofia fala sobre o aprisionamento da alma feminina, seja na pela de uma garota de 13 anos, como em Virgens Suicidas, seja na perspectiva de uma rainha aristocrática, em Maria Antonieta. Todas suas personagens são uma só: um reflexo da própria Sofia. Personagens perdidas, entediadas, pressionadas pela fama ou pelo dinheiro, mas que não sabem o que fazer da vida. Pessoas que procuram pela genialidade, mas se sentem medíocres.

Filha do diretor Francis Coppola, ela sabe bem o que é viver sob holofotes. A diretora usa da cultura pop contemporânea e de elementos da sua própria biografia para falar sobre o vazio existencial de seus personagens, a busca pela identidade, melancolia, tédio e futilidades.

Sua obra é curta, então vou aproveitar para falar um pouco sobre cada um dos filmes.

Virgens Suicidas

Não existe um filme melhor para falar sobre Sofia Coppola do que o belíssimo Virgens Suicidas. Durante a década de 70, a família Lisbon vive num bairro de classe média de Michigan. O sr. Lisbon é um professor de matemática, sua esposa é uma rigorosa religiosa e mãe de cinco adolescentes, que atraem a atenção dos rapazes da região. O subúrbio fica chocado quando a jovem Cecília (Hanna R. Hall), de apenas 13 anos, comete suicídio. A mãe aumenta sua preocupação com as outras jovens, aprisionando-as de qualquer convívio social, enquanto as garotas lidam com a morte da irmã de variadas formas. O filme é inspirado no livro homônimo de Jeffrey Eugenides e consegue transmitir toda atmosfera de idolatração que os rapazes, que narram a história, têm pelas garotas. Sofia consegue trazer uma delicadeza, abordando seus temas preferidos: o aprisionamento da alma feminina e o tédio. Um filme delicado, sutil e bem desenvolvido.

Encontros e Desencontros

Um dos filmes mais famosos de Sofia, o longa mostra a amizade de duas almas perdidas em meio ao Japão. O nome original ‘Lost in Translated’ é muito melhor para explicar o filme, já que os protagonistas sofrem por não conseguirem se comunicar com as pessoas, sejam os japoneses ou seus companheiros. Bob Harris (Bill Murray) é um ator de meia-idade que realiza trabalhos publicitários. Casado, seu matrimônio passar por uma fase entediante e ele questiona o sentido que sua vida levou. No hotel, ele conhece Charlotte, a esposa de um fotógrafo que se sente sozinha em Tóquio, enquanto seu esposo trabalha. Recém formada, ela também não está feliz em seu casamento, sente-se perdida no mundo e não sabe que caminho seguir. O filme é delicado, alternando entre diálogos (engraçados ou reflexivos) e longas cenas de silêncio. Apesar de estarem em fases diferentes da vida, os dois personagens reconhecem a solidão um no outro. O filme é um dos meu favoritos e já cheguei a assistir quatro vezes.

Maria Antonieta

O terceiro filme da diretora retrata a icônica rainha francesa. Muito criticado, principalmente por não ser uma representação fiel da história, o filme apresenta uma rainha adolescente e angustiada. Não é um dos melhores filmes da Sofia, mas é uma obra interessante. Com uma trilha sonora composta por bandas de rock indie e músicas dos anos 80, o filme retrata Maria Antonieta como uma simples adolescente, preocupada em ir para festas e se divertir com os amigos. Ela sofre com um casamento de fachada e se apaixona por um oficial de exército. Quanto mais cresce, mas se sente aprisionada com as regras de Versalles. Em uma cena, chegamos a ver um All Star cor de rosa entre os sapatos de Maria Antonieta. A diretora queria, exatamente, colocar a rainha no mesmo patamar que as jovens estrelas de Hollywood ou filhas de famosos em Beverly Hills, tal como foi a própria Sofia.

Um Lugar Qualquer

Dessa vez o protagonista da história é um homem, mas nem por isso o olhar feminino está fora deste filme que, ao meu ver, é encantador. Johnny Marco (Stephen Dorff) é um bem sucedido ator de Hollywood, hospedado no lendário hotel Chateau Marmont. Ele tenta se recuperar de um acidente no set de filmagens enquanto passa os dias em festas com strippers ou dirigindo sua Ferrari. Porém, tem sua rotina alterada quando sua filha de 11 anos, Cleo (Elle Fanning), passa a visitá-lo. Embora a princípio seja incapaz de dar atenção à menina, a progressiva aproximação leva Johnny a reavaliar sua vida. O filme usa a mesma técnica de Encontros e Desencontros para contar sua história: se foca nos personagens. Não é um filme de ações, de narrativas, de histórias supreendentes. É nos detalhes que Sofia vai te encantando, te apresentando a relação entre pai e filha, te emocionando com as inseguranças dos personagens. O tédio e a melancolia, outros temas abordados pela diretora, são os protagonistas invisíveis do filme.

Bling Ring

Acho que este é o único filme da diretora que não gosto. Talvez precise assistir de novo, mas a história da gangue de ladrões adolescente não me encantou. Inspirado em fatos reais, um grupo de adolescentes obcecados por fama formado por Rebecca, Marc, Nikki, Sam e Chloe usam a internet para descobri a casa de celebridades e roubá-las. Suas vítimas incluem Paris Hilton e Lindsay Lohan. A gangue já possuíam uma boa condição financeira, querem ficar próximos de um mundo de fama, que está sempre perto, mas nunca ao alcance. Eles divulgam seus ‘prêmios’ nas redes sociais, tirando fotos com dinheiro e objetos furtados. Sofia critica a industria do entretenimento e a glamurização através das redes sociais.

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