A gente não precisa ser genial

Peru2014-167

Eu sempre fui uma criança inteligente. Não era um prodígio (esse era o papel do meu irmão), mas gostava de ler, tirava boas notas e sempre fazia perguntas que deixavam meus pais em saia justa. Também convivi, durante minha infância, com adultos memoráveis. Meu pai é um jornalista respeitado, referência intelectual em seu estado que impressiona qualquer pessoa rapidamente. Minha mãe é uma professora universitária inteligente, excelente gestora e ótima produtora executiva de projetos sociais. Então, eu cresci em volta de seus amigos igualmente inteligentes. Muitos eram referência política do nosso estado e até do país, como o caso de Marina Silva.

Com isso, é de se esperar, que uma pessoa que cresce em um berço intelectual tão movimentado deveria ser um pequeno gênio, não é? Sempre senti que as expectativas eram muito altas e eu deveria atendê-las e supera-las o tempo todo. Não há nada de errado em tentar fazer o seu melhor, mas tentar ser genial é muito cansativo.

Conversando com alguns amigos percebi que esse não era um drama apenas meu, mas de todas as pessoas da minha idade e círculo social. Acho que por sermos pessoas privilegiadas, ou seja, tivemos oportunidade de estudar em bons colégios, irmos para faculdade e trabalhar cedo. Com isso, a carga de responsabilidade logo começou a pesar nos nossos ombros.

Ao mesmo tempo, pela internet, fomos descobrindo pessoas cada vez mais novas que se destacavam no mundo. Era aquela blogueira que aos 20 anos virou empresária, a cantora que virou diva pop aos 22, a universitária que desenvolveu um projeto comunitário muito foda, o rapaz que criou sites e aplicativos revolucionários, a vlogueira que atinge milhares de pessoas.

As referências não param por aí, na timeline do facebook você encontra muitas pessoas que estão fazendo coisas legais, trabalhando em bons empregos, ganhando dinheiro, viajando o mundo ou fazendo um monte de coisas que você gostaria de fazer ou sente que deveria. A sensação é que todo mundo está evoluindo e você está parado no mesmo lugar. Que todo mundo está fazendo coisas geniais e você… Não.

Nessa hora, você, que sempre ouviu dos seus pais que era uma pessoa especial e inteligente, que sempre teve adultos dizendo “nossa, que criança esperta”, sente que é uma grande farsa. Que está mentindo para o mundo e para si mesmo e que, em algum momento, alguém vai perceber isso. Outro dia eu descobri que isso tem nome, é a síndrome do impostor. A diferença é que você nem sente que está fazendo sucesso, como a maioria das pessoas com a síndrome.

No final do dia, você olha ao redor e pensa “Eu não sou genial”, mas o mundo clama para que seja. Ou você é genial, ou será esquecido. E ninguém quer ser apenas mais um na multidão. Quando você vê, começa a ter medos constante de não atender as expectativas, de não atingir seus objetivos, de não fazer nada de memorável com a sua vida. Começa, também, a travar na hora de escrever um texto ou enviar um currículo.

Andei refletindo muito sobre essas coisas ultimamente e cheguei a conclusão de que não quero ser genial. Acho que estamos tão preocupados em fazermos grandes gestos que esquecemos que são as pequenas coisa no dia a dia que realmente fazem a diferença. Esse negócio de ser genial, na verdade, é só um complexo de querer ser melhor do que os outros, alimentar os nossos egos, conseguir curtidas no facebook e tentar suprimir algum carência emocional. Então, é bom analisar, por que eu quero ser memorável? Eu preciso mesmo ser inesquecível? Quem eu estou querendo impressionar, afinal de contas?

É importante também lembrar, em meio as nossas crises produtivas no meio da semana (fruto desde constante medo de falhar na nossa busca pela genialidade) que os gênios nunca foram reconhecidos no seu tempo e que todas aquelas pessoas que conquistaram notoriedade não surgiram do nada. A verdade é que nós nunca percebemos as conquistas quando estamos trabalhando nelas.

É como subir uma montanha, parece que o destino nunca chega. Parece que ainda tem muito chão para subir e você nunca vai conseguir, mas quando menos espera, chega ao mirante. Apenas ao olhar para baixo que percebe o quanto caminhou. É um pensamento auto-ajuda, mas é real.

Então, vamos parar de tentar ser geniais e, talvez, apenas apreciar a subida da montanha? Se a gente pensar menos no quanto temos que ser fantásticos, podemos aproveitar muito melhor o passeio.

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