Carta ao Pai

Esse negócio de morar longe da família deixa a gente bastante emotiva. Sem ter como mandar presente, no Dia dos Pais escrevi um e-mail para o meu e enviei, com todo o amor. Não fiz homenagem no facebook, porque papai não gosta dessa coisa de redes sociais. 

No fim do domingo liguei para ele e perguntei se tinha gostado do e-mail. Ele respondeu: “Li o texto para todo mundo lá em casa, mas com uma condição. Disse que ia parar de ler na hora que visse alguém chorando. No final, tava todo mundo de costas pra mim, pra que eu não visse o chororô”

Por insistência de alguns amigos e familiares, que queriam ler a carta, coloco ela aqui no blog. 

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Acho que essa é uma das poucas fotos que tenho sozinha com meu pai.

Pai,

Eu sempre adorei datas comemorativas, principalmente depois que você e a mãe se separaram. Era nestas datas que qualquer briga ou indiferença era colocada de lado para comemorarmos juntos, como a família que nunca deixamos de ser. A medida que a família foi crescendo, com a Marina, o Francisco e o Elias, essas datas só foram ficando mais felizes e animadas. Agora elas me lembram de tudo que estou abrindo mão para realizar meus sonhos, me lembram que as pessoas que eu mais amo no planeta estão bem longe (fisicamente) de mim.

Já comecei o Dia dos Pais chorando com todas as homenagens no facebook, porque sou dessas pessoas que choram por qualquer coisa. Mas é muita sacanagem não ter uma máquina de teletransporte para eu ficar pertinho de você nesse dia.

O resto da família que me desculpe, mas acho que todo mundo sabe que nós dois temos uma relação especial. Não que o senhor me ame mais do que os outros filhos, sua especialidade na paternidade é saber ser justo (na hora de dar amor, bronca e até de esquecer na escola), todo mundo recebe igualmente de acordo com a fase da vida e o merecimento das ações. Mas existe um companheirismo entre nós dois que é difícil de negar.

Talvez por eu ser a mais velha, então logo tive que ajudar com os outros irmãos. Ou talvez seja por decidir seguir a mesma profissão que o senhor e o meu avô, então fica aquela ligação da tradição. Talvez porque eu fui a primeira, entre os filhos, que você pôde sentar e conversar sobre cultura, arte, política, o Acre, a floresta e suas pessoas, entre tantos outros assuntos. Hoje em dia o Samuel consegue tomar o meu lugar em todas essas conversar e cria um laço que eu não fui capaz de criar, o amor pela política (sou mais crítica do que militante). Ou talvez seja apenas os nossos espíritos, que já estiveram entrelaçados antes. Só sei que eu sinto muita falta deste teu companheirismo no meu dia a dia.

Foi o senhor que me ensinou muitas coisas que hoje são essenciais para mim, para começar, o meu amor e respeito pela natureza. Logo eu que estava sempre conectada e odiava ficar na sua colônia, porque lá não tinha energia elétrica. Hoje em dia, um dos meus sonhos é poder viajar pela floresta com o senhor (estou cobrando essa viagem desde os meus 18 anos e não vou parar de cobrar até virar realidade). O senhor sempre foi o melhor professor que uma criança poderia ter.

São tantos ensinamentos que seria impossível colocar no papel, mas escolho um que nunca esquecia. Não lembro exatamente as circunstâncias e o motivo da conversa, mas uma vez você sentou ao meu lado quando eu tinha 15 anos e me explicou o que era amor incondicional. O senhor disse que, não importava o que eu fizesse não minha vida, os erros que eu cometesse, as escolhas que eu fizesse ou a pessoa que eu fosse. O senhor continuaria me amando, sempre. Esse sentimento nunca iria mudar. Foi acreditando neste amor incondicional que minha família tem por mim, que eu nunca duvidei por um minuto que eu poderia ser eu mesma. Ainda bem, porque isso evitou muitos dramas na minha vida.

Você também foi o melhor amigo que um filho poderia querer. É raro ter pais que aceitem conversar com seus filhos com igualdade, vejo muitos que se colocam em um pedestal da paternidade, onde são detentores de todo o conhecimento e devemos aceitar sem conversar ou discutir. Com um espírito anarquista, o senhor tratou de jogar fora o pedestal logo que possível. Mais ou menos quando não precisávamos de ninguém lembrando nossos afazeres diários, como escovar o dente ou fazer o dever de casa.

Eu sei que durante esses 25 anos que estive na terra, não foi fácil, nem para você, nem para a mãe. Ter uma filha que está sempre procurando um lugar mais longe para percorrer e um desafio mais alto para vencer, que não se contenta em ficar perto de suas raízes, não deve ser fácil para nenhum pai.

Eu poderia continuar escrevendo muitas páginas sobre o quanto eu lhe amo e todos os ensinamentos que aprendi com nossas conversas, mas existe uma hora que todo texto deve acabar. Eu pensei muito como lhe fazer uma homenagem neste dia, até pensei em falar tudo isso em um vídeo, para o senhor poder ver minha carinha e matar a saudade. Mas ficaria difícil de conter as lágrimas e eu percebi que nada melhor do que oferecer um punhado de palavras, afinal, ter a escrita como minha forma de expressão é a maior herança que o senhor me deu.

Te amo incondicionalmente

Veriana Ribeiro Alves

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