Bissexualidade: A descoberta

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Esse possivelmente vai ser o texto mais pessoal da série sobre bissexualidade. Já faz um tempo que decidi diminuir o que compartilho da minha vida pessoal na internet, mas acho que é importante detalhar este momento, porque o outro se identifica no seu drama e vice e versa. Às vezes nós passamos por algo que o outro está aprendendo a lidar. Por isso, decidi contar aqui a história de como descobri minha bissexualidade. Porque, no meu caso, foi uma descoberta.

Lembrando: Como uma história pessoal, ela não pode ser usada como um padrão. A ‘descoberta’ da bissexualidade é diferente para cada pessoa, então eu só posso falar sobre a minha experiência. Cada um vive um contexto de vida e lida com esses sentimentos de uma forma diferente, então as histórias podem ser as mais diversas. Essa é a minha.

Ainda me lembra da primeira vez que me falaram que eu gostava de mulheres. Eu tinha 18 anos, trabalhava em uma emissora de televisão e um dos meu colegas de trabalho perguntou se eu gostaria de ficar com uma amiga dele. Quando eu disse que não ficava com mulheres ele riu e disse: “Amiga, você gosta de mulheres. Dá pra ver, se não quiser ficar com ela só diz que não faz teu tipo, mas não precisa mentir”. Ele disse em tom de brincadeira, mas era evidente que ele achava que eu era lésbica. Eu retruquei dizendo que nunca tinha ficado com mulheres, mas que se isso mudasse eu avisava.

Ele me tirou do armário antes mesmo de eu saber que estava em um. A verdade é que, até os 19 anos, eu nunca tinha ficado com mulheres ou pensado no assunto. Eu tinha conhecido uma garota, um ano antes, que achava linda, mas minha relação era muito mais de admiração do que física. Eu prestava atenção quando ela passava e brincava com meus amigos que estava apaixonada, mas eu não tinha vontade de beija-lá ou namorá-la. Eu a achava bonita e queria ser como ela. Era bem diferente da relação que tinha com o sexo masculino.

Então, na minha cabeça, eu era hétero. Até que aos 19 anos eu conhecia uma garota. Ela era novata na universidade. No começo, apenas achava ela engraçada e divertida, estava muito mais interessada em um dos seus amigos, mas com o tempo, começei a perceber que tinha sentimentos por ela. Quando a via, eu queria beijá-la. Ao desobrir que ela também ‘beijava meninas’ minha vontade apenas aumentou. E um dia, após uma festa, eu beijei ela.

Na época eu não queria relacionamentos sérios e ela não queria ‘estragar a amizade’, então nossa relação não passou daquela festa. Depois disso, apareceram outras garotas interessantes e eu me envolvia com elas, sempre da mesma forma. Em festas. Nada sério.

Não contei para os meus pais inicialmente, mas não por medo de me assumir ou ser rejeitada. Meus pais são pessoas que sempre me deram segurança e, mesmo sabendo que a notícia não seria recebida da forma mais feliz do mundo, eu tinha certeza que não lidaria com a rejeição deles. Apenas não via a necessidade de me assumir, já que gostava de manter eles longe da minha vida amorosa. Como não queria namorar com ninguém, não apresentava os homens com quem me envolvia. Então por que iria apresentar as mulheres? Eu fugia de qualquer tipo de amarra e não iria apresentar para eles pessoas que não pretendia manter na minha vida.

Nessa época, raramente ficava com mulheres mais do que um vez. Então cheguei a pensar que não era bissexual. Afinal, se eu fosse ‘bi’ ou ficaria com mulheres além desses ambientes, não é? Olharia para mulheres na rua. Eu não fazia isso.

Mas também não ficava muito tempo refletindo sobre minha sexualidade naquela tempo, até que fiquei com uma mulher mais velha e, no dia seguinte, desejei ver ela de novo. Corri atrás de um amigo em comum para conseguir o telefone e ficamos por um mês. Meu medo de compromisso na época me fez desaparecer quando as coisas começaram a ficar sérias, mas isso mudou a minha vida. Por um mês, eu tive vontade de ir ao cinema, comer um Tacacá na praça, andar de mãos dadas, o pacote completo. Não senti vergonha ou medo de fazer nenhuma dessas coisas, foi divertido enquanto durou. Pena que eu não podia ouvir a palavra ‘namoro’ sem sair correndo apavorada, então quando meus amigos começaram a me perguntar sobre ela… Eu fugi do relacionamento.

Foi após essa moça que percebi que era bissexual. Minha atração por mulheres não estava mais associada com alguns beijos em festas. Apesar do ‘relacionamento’ não ter utrapassado um mês, eu consegui perceber que havia ali um sentimento. Eu me interessava por homens e mulheres, então era bissexual.

Por muito tempo eu não usei o termo bissexual. Até porque, muitos dos meus amigos não precisaram me perguntar se eu era gay ou hétero. Eles estavam lá quando começei a sair com mulheres, também estavam presentes quando continuei ficando com homens. Essa é a vantagem de amizades longas, eles vão descobrindo sobre você junto contigo.

Descobri minha bissexualidade de uma forma bem natural. Nunca pensei que era lésbica, eu sentia atração por homens e sabia disso. Também não fiquei me perguntando que sentimentos eram aqueles que tinha por mulheres, simplesmente vivia. Nunca passei por uma crise com minha sexualidade ou medo de sofrer algum tipo de preconceito. Uma das minhas tias se envolvia com homens e mulheres, a mãe de um amigo também. Então, para mim, aquilo não era algo para sofrer ou ser analisado, eu simplesmente gostava de meninos e meninas.

É assim até hoje, não mudou com o passar dos anos, apesar de algumas pessoas ainda acharem que estou ‘passando por uma fase’ ou ‘indecisa’. Como disse um amigo meu, há alguns anos: “No começo eu pensei que a Veriana era indecisa. Agora eu percebo que ela é a pessoa mais bem decidida que eu conheço”. Quando você é bissexual você precisa saber extamente o que você quer… E o que você não quer. Eu não me envolvo com qualquer pessoa que conheço, também não sinto tesão por qualquer homem ou mulher. Mas sobre isso, vamos falar em outro texto. Esse já está ficando muito longo.

E vocês? Como foi esse momento de descoberta? Você passou por conflitos internos, dificuldades para aceitar? Ou foi algo que aconteceu naturalmente? Me conta a sua história também! 

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