O terror diário de ser mulher

Em uma pesquisa da Universidade de Dakota do Norte, 86 estudantes americanos responderam perguntas sobre estupro. Cerca de 36% deles admitiram que, se não fossem presos ou pegos, eles estuprariam uma mulher. Um terço dos homens estupraria uma mulher, se não houvessem consequências. Eles não acham o ato impróprio, só não querem ser pegos. Outra pesquisa americana  mostra que 1 a cada 5 mulheres é estuprada em algum momento da sua vida. Significa que se você tem 500 amigos no facebook e 250 forem mulheres, pelo menos 50 delas já foi ou vai ser estuprada. Pense em todas as mulheres que você conhece, qual delas já sofreu isso? Qual ainda vai sofrer?

O estupro é tema da Super Interessante esse mês e eles publicaram aqui 104 histórias de estupros, eu não consegui ler mais que 10. Comecei a chorar e tive que parar a leitura. Os poucos que li já mostram que qualquer um pode ser estuprador: o pai, o padrasto, o avô, o primo, o amigo, o colega da faculdade, um desconhecido. Qualquer uma pode ser a vítima, sua irmã, sua filha, sua amiga, sua colega da faculdade, sua mãe. Então por que o estupro é um problema só das mulheres? Por que os homens também não combatem o estupro?

Imagine a seguinte cena: Você decide ir na piscina pública de um parque aquático. O lugar está lotado, você é mulher e está de biquíni. Então os homens do local, entre 70 a 80, decidem que vão arrancar o biquíni das mulheres que estiverem na piscina e dar dedadas em suas partes íntimas.

Você é afogada, segurada por três homens, um levanta a parte de cima do seu biquíni até o pescoço e a parte de baixo até seu joelho e todos começam a te tocar. Você consegue se soltar e com a ajuda das outras mulheres sair da piscina desesperada. São cerca de 20 mulheres que foram atacadas e todas estão chocadas e assustadas.

No dia seguinte, quando o assunto chega aos jornais, você descobre que as pessoas te culpam por ter ido nadar de biquíni. O administrador do espaço diz que não teve abusos, a qualidade dos biquínis que eram ruins e por isso rasgavam. Enquanto isso os homens se gabam no Facebook de quantas mulheres deram dedadas naquele dia.

Acha isso um absurdo? Essa é uma história real, aconteceu em Hanoi, no Vietnã. Ser mulher é viver neste mundo.

Ao ler essa notícia me veio diversos pensamentos, o primeiro foi “Isso é um absurdo”, seguido de “como pode isso acontecer?”. Compartilhei a notícia no facebook e várias outras mulheres ficaram ultrajadas… Mas após duas horas percebi que nenhum comentou o assunto, eles não pareciam se importar ou ficar chocados. Não era relevante para eles.

Então eu pensei nos homens que estavam naquela piscina. Não é possível que todos os estupradores do Vietnã tenham decidido tomar banho de piscina no mesmo dia. Todos eles viraram estupradores naquele momento, quando se aproveitaram de uma situação para abusar de mulheres. Eles possivelmente têm filhos, filhas, esposas, irmãs e mães. Ainda assim, eles acharam que era um comportamento aceitável e até engraçado dar ‘dedadas’ em mulheres.

Mas você vai e pensa, isso só acontece na Ásia, onde o machismo é maior. Nunca iria acontecer no Brasil. Mentira, isso acontece sempre no Brasil, é só ir ao carnaval ou qualquer show.

Você sabe porque mulheres sempre andam segurando a mão uma da outra em lugares muito lotados e com pessoas bêbadas? Não é porque elas têm medo de se perder. Ser mulher e ir ao carnaval (ou show) é estar preparada para uma simples situação: Você está andando, quando um grupo de homem te prende em um roda e diz que você só vai sair de lá se beijar um deles (ou todos). São cinco, seis, oito homens. Você é apenas uma mulher. O que irá acontecer se você se recusar? Você segura a mão da sua amiga porque ela pode te ajudar a fugir daquela situação, te puxar e tirar da roda.

Eu já passei por isso mais de um vez. Na primeira vez tinha 17 anos e estava com uma amiga de 15. Era um festival de verão no nordeste e ficamos presas naquela roda. Comecei a gritar e empurrar o homem que estava na minha frente, até que ele nos deixou passar. Minha amiga estava apavorada. Eu ainda consegui ouvir os homens rindo e um deles falar “Que histérica, não sabe nem brincar”.

Para os homens naquela piscina, dar dedadas era uma brincadeira. Para as mulheres, é um terror. Assim como é assustador ser presa em uma roda de rapazes. É voltar para casa se sentindo imunda, é chorar deitada, é ter medo de andar na rua. É ter a certeza que o nosso corpo não é respeitado e se um homem quiser tocar nele, mesmo contra a nossa vontade, ele irá tocar.

Os estupradores não são pessoas doentes ou sociopatas, são pessoas comuns, que não respeitam o corpo das mulheres e sua autonomia. Podem ser qualquer pessoa, até o seu melhor amigo. O estupro existe porque há uma cultura machista que permite. Quando você faz piadas sobre mulheres, quando você acha engraçada a propaganda do ‘Verão’, quando você culpa a vítima porque bebeu, ou não gritou ou usou determinada roupa… Você é cúmplice desse crime. Você permite que as mulheres sejam estupradas, mesmo que não cometa o ato. Você aceita olhar para o outro lado.

Está na dúvida se algo pode ser estupro ou não, esse vídeo explica o que significa consentimento. Quando existe consentimento, não é estupro. Quando não existe, é estupro.

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