Que ‘bandidos’ são esses?

A PEC 171/93, conhecida popularmente como a PEC da Redução da Maioridade Penal, não conseguiu passar no congresso por um diferença muito pequena de votos foi aprovada após manobra do Eduardo Cunha. Durante semanas vi e participei de alguns debates sobre esse projeto, alguns tinham embate de ideias que, mesmo contrários, mantinha o respeito. Outros (a maioria) caiam para um limbo triste de ofensas e ameaças. Do ‘leva para casa’ até o ‘no dia que alguém da tua família for morto por um desses você vem conversar comigo’. Um lugar em que a vingança é vista como justiça e ninguém parece preocupado em resolver o problema.

Hoje tive o desprazer de ver um deconhecido desejando que um parente meu fosse estuprado e morto, por ‘defender bandido’ e usar ‘avatar colorido’ no facebook.O desconhecido, que aparentemente defendia as ‘pessoas de bem’ desejava com tanto ódio que esses crimes fossem produzidos que por um minuto fiquei em dúvida se aquilo poderia ser classificado como uma ameaça.

E com isso, eu me pergunto, que ‘bandidos’ são esses que vocês querem prender dentro das grades?

Sempre que ouço falar nesses menores infratores, eles parecem ter uma mesma história e nenhum rosto. São jovens pobres, negros, que vivem em favelas e ameaçam as ‘pessoas de bem’. São assassinos, estupradores, ladrões e traficantes que não tem solução e devemos escondê-los em prédios afastados, longe da vista de todos. Eles não tem vida, apenas ficha criminal. É como se esses ‘bandidos’ já tivessem nascido com uma arma na mão e um ódio eterno para fazer mal.

Eu não sei vocês, mas quando meu irmão mais novo nasceu eu tive a certeza absoluta que é impossível alguém nascer bandido. Eu via apenas um ser de luz, com um potêncial incrível pela frente. Um ser humano que foi crescendo tentando descobrir o mundo a sua volta, qual a textura das folhas, qual o gosto das comidas, qual o cheiro dos animais. Um ser humano que  também descobriu a malícia, que se chorasse bastante ia ser colocado no colo ou ia ganhar água, que se irritasse demais ia conseguir fazer mudar o desenho animado e que se divertia em ver os irmãos correndo atrás dele preocupados. Alguém que precisa ser guiado para saber o que é ‘certo’ e ‘errado’.

Mas o que é ‘certo’ para mim, não é para o avatar que ameaçou meu parente. Eu, por exemplo, acho errado dizer que uma pessoa deveria ser estuprada.

Acho que é por fazer esse tipo de conexão é que eu nunca funcionei na área de reportagem policial. Quando eu tinha a oportunidade de entrevistar os ‘bandidos’, eu não conseguia deixar de pensar que aquelas pessoas eram seres humanon. Eles às vezes me ameaçavam, ou inventavam desculpas, sempre costumavam chorar (e você não sabia exatamente qual choro era verdadeiro ou falso). Mas eu não conseguia deixar de ver eles como seres humanos. Pessoas que um dia foram crianças, como o meu irmão.

Em que momento a vida fez com que eles fossem capazes de cometer crimes? Eu seria capaz de cometer esses mesmos crimes se tivesse vivido como ele? Se tivesse sido criada como ele? Eu também me pergunto quem são essas pessoas por trás dos avatares que ameaçam meus parentes. Se eu tivesse sido criada como elas, também estaria desejando o estupro alheio? Afinal de contas, qual a diferença entre os meninos-sem-rostos e os avatares raivosos? E porque os avatares se acham tão superiores desses meninos-sem-rosto?

Eu não tenho resposta para nenhuma dessas peguntas. Mas deixo aqui alguns dados que meu irmão (dessa vez o de 22 anos) andou postando no facebook. Talvez isso faça a gente descobrir quem são essas pessoas sem rosto e sem nome e consiga entender, um pouco, o que estamos tentando fazer.

  • Segundo o Unicef (Fundo das Nações Unidas para a Infância), dos 21 milhões de adolescentes brasileiros, apenas 0,013% cometeu atos contra a vida.

  • O Brasil é o segundo país no mundo em número absoluto de homicídios de adolescentes, atrás apenas da Nigéria.

  • Hoje, os homicídios já representam 36,5% das causas de morte por fatores externos de adolescentes no país, enquanto para a população total corresponde a 4,8%. Mas não são jovens brancos da classe média que estão sendo assassinados. Dos 56.337 homicídios ocorridos em 2014, 30.072 são negros entre 18 e 29 anos.

  • Dos 43 deputados da 1ª Comissão de Constituição e Justiça que votaram em Abril a favor da redução, nada menos que 25 deles (60%) estão sendo investigados por fraude eleitoral ou demais crimes, incluindo operações da Polícia Federal. Tratando-se de um caso gritante de possíveis criminosos querendo mudar as regras do jogo.

  • Dos quase 610 mil presos (4ª maior população carcerária do mundo) 67% deles são negros, 53% possuem ensino fundamental incompleto, e 56% deles são JOVENS ENTRE 18 E 29 ANOS. De novo, se não são mortos por aí, os jovens negros são postos atrás das grades.

  • Dos mais de 250 mil desaparecimentos registrados apenas em 2013 (não consegui os dados de 2014) cerca de 50 mil destes são de menores de idade. Menores estes que estão sendo vitimas do tráfico de drogas, sexo, órgãos e trabalho escravo.

Também fica alguns textos da Eliane Brum, sobre o tema.

Para Brasília, só com passaporte

No Brasil, o melhor branco só consegue ser um bom sinhozinho

“Mãe, onde dormem as pessoas marrons?”

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