O feminismo é laranja

Reflexões sobre a terceira temporada de ‘Orange is The New Black’

Depois de muito tempo decidi dar uma chance para ‘Orange is The New Black’ e, alguns dias antes de estrear a terceira temporada, comecei a assistir a série. No começo pensava que era apenas uma série gay, até porque todas as pessoas enalteciam o romance entre Piper e Alex. Mas após finalizar a terceira temporada eu tenho uma certeza: Orange é uma série feminista.

Para quem não conhece, a série mostra a vida de mulheres em uma prisão federal, tendo como fio condutor Piper, uma jovem de classe média que é presa por ajudar sua ex-namorada, a traficante Alex, a carregar drogas há 10 anos. Ao chegar no presídio ela acaba encontrando, além da ex-namorada, um grupo diverso de mulheres e conhecendo suas histórias.

Agora eu preciso lembrar que vai rolar spoilers, principalmente da terceira temporada, então se você não curte spoiler vai logo assistir a série no netflix.

Na primeira temporada, a história gira em torno da adaptação de Piper na prisão. Conhecer as regras, se desvincular do mundo exterior, se impor, entre outros conflitos. O passado dela ganha destaque em vários episódios, até para evidenciar a falta de liberdade. Na segunda temporada, a série começa a se afastar gradativamente do triângulo amoroso entre Piper, seu noivo e Alex para focar, cada vez mais, no passado das outras detentas. A diferença entre negras, latinas e brancas também é evidenciada com uma luta de poderes dentro do presídio.

Na terceira temporada a série evolui ainda mais. Desta vez Piper não ganha nenhum episódio com flashbacks, o foco está totalmente na história das detentas, religião, a privatização do presídio e a relação de poder entre homens e mulheres.

Ganhamos nesta temporada mais destaque pros homens na trama, com direito ao passado de Sam, Bennet e Caputo. Mas esse aumento do universo masculino só evidência a diferença de poder e privilégio entre os gêneros. É interessante ver a série como um metáfora da patriarcado, com as mulheres (detentas) sempre em situação de poder inferior aos homens e eles com o privilégio da liberdade. Como diz Red em um dos episódio: Nós não somos iguais. Isso não é uma relação normal de humano para humano.

Claro que existem guardas do sexo feminino, e para sobreviver, elas precisam agir como homens. Elas também são as personagens que mais têm empatias pelas detentas. Neste temporada fica cada vez mais evidente que o intuito é mostrar as várias formar de se tirar a liberdade de uma mulher.

São tantas coisas interessantes tratadas nesta temporada, que é impossível colocar tudo em um lugar só. Vou ficar com algumas das minhas histórias preferidas.

Nunca pensei que diria isso, mas Pensilvânia ganhou meu coração nesta temporada. Sua amizade com Boo deve ser uma das melhores ideias da série, com direito a cenas emocionantes. Nesta temporada, Boo também deixa de ser um estereótipo de lésbica de cadeia para se tornar uma personagem extremamente complexa e com fortes ideais. Seu passado é emocionante, mostrando como lésbicas precisam lutar todos os dias para se impor em uma sociedade que nega sua real existência e quer que ela se moldem ao seus anseios de como uma mulher deve se vestir, agir ou se portar. O preconceito não é por quem você é atraído sexualmente, mas como você se mostra ao mundo. Pode gostar de mulher, mas tem que ser feminina.

Pensilvania é responsável pela parte mais tocante do seriado. Sua história vale, sozinha, uma reflexão. A cena do seu passado em que ela descobre o que é orgasmo – mesmo sendo sexualmente ativa – é muito interessante. A personagem mostra como o sexo é ensinado para as mulheres como uma obrigação, com isso ela não percebe seus próprios anseios sexuais, fazendo com que o sexo vire uma moeda de troca. Mas ao descobrir seu desejo, ela não quer mais aquele antiga forma de relação, o que não é bem visto por aqueles que se beneficiam com esse tipo de arranjo.

Em paralelo, vemos como uma relação de suposta amizade pode virar abusiva quando não existe igualdade e consentimento. A cena em Pensilvânia tenta defender seu estuprador e, logo depois, Boo mostra que ela havia sido estuprada é dilacerante. Impossível não chorar.

A religião também é um fator muito importante nesta temporada, desde a criação de uma nova seita, que tem Norma como messias até a discussão sobre judaísmo, que começa quando muitas detentas pedem comida Kosher e um rabino precisa intervir. Desde o primeiro episódio essa relação com a religião vai se construindo até chegar ao final, e assim entendemos porque toda a promoção desta temporada está em volta das velas.

A privatização do presídio é outro tema importante. Quando Lightfields ameaça ser fechado, Caputo recorre ao sistema privado, que no começo parecia a salvação de todos os problemas. Mas logo isso se transforma em um sistema totalmente desigual que diminui a qualidade do presídio para aumentar o lucro. Comida de má qualidade, guardas sem treinamento e falta de programas de reintegração social são alguns dos problemas que surgem com a mudança do sistema.

O assunto da transfobia também é tratado de forma maestral, com uma evolução gradativa durante os episódios, até chegar ao seu momento ápice. Vemos como o ódio contra Sophia, que a primeira vista parecia não existir, vai aflorando no presídio quando começa a surgir conflitos com outra detenta.

O seriado é lindo, após tanto tempo vendo o entretenimento contar histórias únicas sobre mulheres – como se todas tivessem o mesmo perfil, as mesmas dores, o mesmo biótipo – é bonito ver um programa que mostra as varias formas e cores do que é ser mulher, em toda sua complexidade.

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