Gays vão continuar existindo, mesmo que você boicote o Boticário

Eu não ia falar sobre a propaganda do Boticário, mas decidi que ainda existem coisas que valem a pena lutar (e falar). A maioria dos meus amigos e familiares sabem, mas para os poucos desavisados leitores, eu sou bissexual assumida. Apesar de já ter vivido alguns relacionamentos heterossexuais, a maior parte dos meus relacionamentos sérios e significativos se desenvolveu com mulheres. Dito isso, nunca pensei que ter casais se abraçando e dando presentes em uma propaganda de televisão iria ser tão ofensivo, porque eu já fiz isso algumas vezes e não foi nada demais. Foi até fofo.

Além do mais, depois de três novelas seguidas no horário nobre com beijo entre casais homossexuais, achei que alguma evolução já tinha acontecido na nossa sociedade. Mas quem é gay sabe que, quanto mais nossos direitos se igualam, maior é a onda conservadora que tenta freiar este movimento. Não é exatamente sobre a propaganda que eu quero falar, ou sobre o boicote conservador que está rolando a empresa (que, aparentemente não está dando muito certo), nem mesmo sobre a minha vida amorosa. É sobre essa vontade de esconder a realidade.

Acho que uma coisa tem que ficar clara nessa história, para você, pai, mãe ou filho que achou aquela propaganda do Boticário absurda: Mesmo que não hajam propagandas ou casais gay em novelas, mesmo que as pessoas não andem de mãos dadas na rua, mesmo que você não consiga identificar um único gay a sua volta, não significa que eles não existam.

Nós existimos. Mesmo sem propagandas voltadas para mim, nos últimos anos eu troquei presente do Dia dos Namorados com pessoas do mesmo sexo que eu, assim como diversos outros casais homossexuais no mundo. Aquilo que acontece na propaganda da Boticário já acontece na vida real e vai continuar acontecendo.

Fingir que a gente não existe, não vai fazer toda uma comunidade desaparecer milagrosamente. Seu mundo de faz de conta não vai virar realidade. Ele não existe e nunca existiu. No passado já existiam gays, eles só estavam sendo mortos, apanhando ou se escondendo em seus respectivos armários. Mas eles ainda existiam e vão continuar existindo.

As listas de empresas que apoiam a causa gay ou têm importantes profissionais gays em sua história apenas comprova isso, é só pesquisar. Você consegue se imaginar sem computador? Bom, um gay inventou ele. Assim como inventaram várias outras coisas que você usa todos os dias para trabalhar ou são responsáveis por empresas conhecidas, como Apple ou Facebook.

Se os gay não existissem, o mundo não seria como ele é hoje, muitas das coisas que você precisa, gosta, sonha e deseja não existiriam. Possivelmente, muitas pessoas que você respeita também não existiram, porque cada pessoa contribui de alguma forma para a história da humanidade. É como aquela teoria da borboleta, estamos todos interligados.

Nós gays não apenas existimos, como somos médicos, advogados, programadores, atores, cantores, vendedores, jornalistas, engenheiros, pedreiros, empresários, atletas, etc. Nós existimos e trabalhamos para você e com você, e sem nós o mundo estaria tão desfalcado, como estaria sem mulheres, negros, índios ou sem casais heterossexuais. Somos todos essenciais, de uma forma ou de outra, mas você gasta tanto tempo nos odiando que nem consegue ver como a nossa presença é importante.

Agora por que gays precisam estar na televisão, nas propagandas, nos livros? Porque não podemos continuar escondidos, como antigamente? Porque nós somos reais. Somos pessoas, e como todos os seres humanos, precisamos ter referências de quem nós somos externalizadas. É para isso que existe a arte e o entretenimento, afinal de contas. Para que possamos nos identificar, emocionar, sensibilizar e se reconhecer naquilo que está sendo transmitido.

Também é importante que existam gays, lésbicas e bissexuais na televisão e propagandas para que possa existir uma coisa chamada empatia. Para que os casos de homossexuais que se suicidam por não serem aceitos diminuam e que os pais de crianças gay parem de bater em seus filhos por ignorância. Para que até aquelas pessoas que não são gays possam entender a dor e o sofrimento de não ser aceito pela sociedade.

Ter propagandas do Boticário, por mais marketing que seja, é importante para que sejamos reconhecidos como aquilo que nós somos: seres humanos. Você conseguem se reconhecer todos os dias na mídia, nós também queremos isso.

Você podem continuar tirando nossos direitos ou boicotando qualquer forma de expressão de que existimos. Você podem até continuar realizando crimes homofóbicos, mas nós ainda vamos existir e lutar por um mundo mais igualitário. Para que a gente possa continuar dando presentes no Dia dos Namorados para aqueles que amamos.

Pensando aqui, acho que talvez esse tenha sido o grande drama na propaganda: os conservadores foram obrigados a ver que gay também namoram e trocam presentes, assim como eles. Deve ser difícil perceber que você é exatamente igual aqueles que você odeia.

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